quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Relato de uma psicanalista. [Part 2]

Estou acordada e sóbria.
É noite de quinta feira, estou em casa, sozinha.
Às vezes me pego pensando nos homens... Todos tão iguais...
Tolice minha. Não era pra perder meu tão precioso tempo pensando em criaturas tão sem personalidade.
Mas precioso tempo por que, já que vivo sozinha e sem nada fazer?
E é isso o que me faz pensar cada vez mais neles.

Homens. Vários homens.
Namorados, casos, ficantes, rolos... Mas sempre homens.
Eu tive que aceitar que como tenho maior parte do meu tempo dedicado a mim mesma, não posso dar atenção a um marido. Então não fico com um homem mais de três vezes.
Mas isso foi de uns tempos pra cá.
Tentei ser a mais engraçada, amorosa, gentil, companheira e fiel a ele, e consegui alcançar meus objetivos.
Mas não foi o suficiente para ele. Talvez precisasse de mais de mim, e eu não pude dar.
Fim trágico.
Não conseguia fazer nada, pois meus pensamentos diários tinham um centro, que não era ele mesmo. Era ELE.

Eu, como psicanalista, preciso organizar além dos meus pensamentos, os pensamentos dos meus pacientes.
Acabo por várias vezes dando preferência aos deles. Não quero ser egoísta. “Pode passar na minha frente”.
Nunca tenho tempo para mim.
Então quando finalmente o acho, não aproveito comigo.
Báh, talvez eu seja exatamente o contrário de egoísta, mas não sei o nome.
Sempre que tenho um tempo livre à noite, saio para me distrair.
Baladas e mais baladas. Sozinha, como sempre.
Conheço e encontro vários caras que fizeram ou vão fazer parte da minha vida.
Não fico satisfeita só com um. I need more!
Me envolvo mesmo. Saio, gasto e aproveito cada momento com cada um deles.
Mas no outro dia, é outro dia, é outra pessoa que está ali.
Então hoje, que estou em casa, com a minha companheira insônia, me pus a pensar se já não está na hora de “melhorar” de vida.
Amorosa, claro.
Parar, estacionar... Como quiser.
Um barulho interrompe meus pensamentos. E vem lá de baixo.
Vou até a varanda e olho de lá. Mas é alto demais, não dá pra ver muita coisa.
É aí que eu sinto um cheiro no ar... Cheiro bom, cheiro de nada!
Sento-me lá perto e fico um tempo lá parada.
Mente vazia.
Depois de um tempo, lembro-me de quando era adolescente...
Sempre achei ter a mente mais avançada do que as outras pessoas da minha idade.
Mas nem por isso me achava a fodona. Na maioria achava que era besteira minha.
Porque logo eu vou ser diferente?
Melhor nem lembrar dessas coisas, vou voltar ao assunto de antes.
Não lembro. Ora merda!
Nível de estresse sobe. Preciso me acalmar.
Cozinha, café! Uma caneca enorme de café será o meu remédio!
Dizem que é por causa do café que tenho insônia.
Báh, coitado do café! Ele é apenas uma bebida...
Volto a sala e sento-me no queridíssimo sofá escuro.
Ah, ele me lembra o meu pai. Coisas negras me lembram o meu pai.
Lembrei! O assunto de antes...
Enfim... Os homens fazem e sempre farão parte da minha vida, eu querendo ou não.
Dependo deles de forma direta para gozar da parte boa da vida. Literalmente.

Não precisaria parar de escrever, afinal, é um dos meus maiores prazeres!
Mas irei fazê-lo.
Sinto que estou me expondo muito... Não quero isso agora.


sábado, 11 de dezembro de 2010

Relato de uma psicanalista.

Preciso confessar uma coisa urgente, porque eu posso esquecer.

Ter perca de memória recente é foda, e eu nunca aprendi a lidar com ela.

Se eu não escrever agora, só daqui a uma semana. Queria aproveitar a memória fresca...

Mas antes preciso do meu antigo vício. Onde está?

Não o acho. DROGA! E agora, o que vou fazer? Não posso escrever isso sem ele!

Estou suando frio, preciso do veneno, pombas!

Escrivaninha, sofá, cama, mesa... Não está em lugar nenhum!

Ah, achei! Estava em cima da tv...

Acendo-o e me ponho a tragar.

Ah! Que saudade estava desse meu velho amigo!

O cheiro logo tomou toda a casa, e finalmente me senti à vontade.

É sábado e está chovendo. Estou vendo a chuva da sala. Os pingos batem na janela e escorrem para baixo. É lindo!

Não sei mais o que queria confessar, estou extasiada por sentir de novo o gosto do meu amigo. E acho que nem tinha tanta importância assim...

Não quero mais saber de nada, só quero ficar aqui, parada, olhando o tempo passar.

Vou até o bar e ponho uma dose de whisky, meu outro amigo.

Agora parece que a chuva cai mais devagar.

Está escurecendo...

Esqueci totalmente do que ia confessar, do que ia escrever e do que iria fazer após isso...

Esqueci do mundo.

É difícil morar sozinha e ser sozinha. A parte boa é que não preciso me importar com ninguém.

Mas minha família não me faz muita falta, e os amigos que tive ficaram para trás junto com o tempo dos estudos. Ah que saudade daqueles tempos...

Era bom não precisar me importar com nada e saber que se importavam comigo.

Hoje estou só. Completamente só.

Sem me dar conta, acabo com os meus amigos que estavam na velha carteira vermelha.

Hollywood. Esse nome faz mágicas!

É melhor não ir comprar mais. Está chovendo, posso ficar gripada. E se fumar mais, esse troço vai me matar!

Não quero morrer. Não agora.

Preciso de música. Música boa.

Francesa!

Levanto-me para por o cd, mas está tudo girando! Será que eu bebi demais?

Vou com cuidado e ponho a música que logo se espalha pela casa.

Ah, uma torrente de saudade evadiu meus sentimentos!

Não posso chorar, sou uma mulher forte!

Ainda assim, uma lágrima teimosa caiu. Não pude evitar.

Volto ao meu sofá negro. Encosto-me e relembro os bons momentos que vivi...

Sinto que estou me desconectando do mundo, que estou apagando. Não consigo evitar...

Acordo no dia seguinte com o sol cobrindo minha pele pálida.

Não me lembro de nada que fiz. Só sinto a cabeça latejando... Dói.

Sento-me e olho ao meu redor. Tv ligada, um copo sujo e uma carteira de cigarros amassada.

“Parabéns, você caiu na tentação mais uma vez!” Me sinto uma idiota.

Levanto-me e vou até o banheiro. Me sinto mal, enjoada...

Corro até o banheiro, me ponho a vomitar.

Me olho no espelho e não me reconheço. Como pude ficar assim?

Me enfio embaixo do chuveiro e passo um bom tempo lá. Talvez até horas!

Mas porra, porque você foi fazer isso?

Choro. Não choro de tristeza, choro de arrependimento.

O que aconteceu antes de começar a beber e fumar? Báh, não lembro!

Taí a tal perca de memória, ela sempre aparece quando eu menos aprecio.

Agora estou no quarto, sentada na cama. O cabelo ainda está molhado.

Domingo. Não sei o que fazer

Preciso comer... Mas não quero.

Preciso seguir minha vida e deixar aquela adolescente que existiu de uma vez para trás!

Sem pena, sem mais lembranças.

O enjôo volta. Ah, de novo não! Volto ao banheiro e vomito ainda mais.

Não sei mais o que fazer...