A cabeça ainda girava, talvez por ter levantado rápido. Até achar a blusa, rodei o planeta Terra 3 vezes, e quando finalmente a encontrei caída no canto atrás da porta, os botões pareciam estar ensaboados, fugiam das minhas mãos.
Atravessei rápido a sala pra chegar no banheiro. Tinha medo de que me vissem alí. Ele disse do quarto:
- Não tem ninguém. Estamos sós.
- Não tem ninguém. Estamos sós.
Acalmei, claro.
No espelho, não reconheci aquele rosto refletido. Estava acabada! Prendi o cabelo apressada, molhei o rosto e saí dalí. Na cozinha, peguei um pãozinho de queijo que estava em cima da mesa. Gritei um "tchau", mas sequer fui respondida. Já esperava por isso.
Subi as ruas daquela cidade me sentindo mal, sem ter a mínima idéia de como chegar na casa dos meus parentes. Procurei o celular pra dar um jeito de ligar pra alguém, e só aí lembrei que tinha esquecido da bolsa. Fiquei frustrada só de pensar em voltar lá. Mas era preciso.
Dei meia volta e fui andando.
As portas ainda estavam abertas como eu tinha deixado. Entrei pelos fundos e era impossível ser mais silenciosa. Levei um susto ao abrir a porta e o ouvir falar bem calmo:
- Esqueceu alguma coisa?
- Esqueceu alguma coisa?
- Minha bolsa. - Falei séria.
Saí da frente dele e me direcionei ao quarto com passos largos. Peguei a bolsa, me certifiquei de que não teria que voltar de novo. Ele bloqueava a saída do quarto, sem expressão. Parei.
- Dá licença? Preciso ir embora.
- Precisa ou quer?
- Os dois.
Ele saiu da frente, abrindo passagem pra mim. Passei sem problema. Estava prestes a abrir a porta da frente, de saída, quando o ouvi falar alto:
- Não vai querer comer? Juro que não vou te atrapalhar.
Parei com a porta entreaberta. Estava morta de fome. Larguei a bolsa em cima do sofá, fechei a porta.
- Só uma xícara de café.
Ele sorriu.
Me sentei na mesa pequena de granito. Além dos pãezinhos de queijo, tinha café, bolo de milho, requeijão, presunto, queijo... Ele sabia bem do que eu gostava. Sentou-se comigo.
Começamos a comer, calados. Ao decorrer dos minutos, ele falou comigo.
- A cabeça tá doendo também?
Eu disfarcei um sorriso e acenei com a cabeça.
Ele levantou-se e pegou um comprimido pra mim e outro pra ele.
Sorri daquela situação. Ele também estava irreconhecível, não por fora, mas por dentro. Nos conhecíamos bem pra saber exatamente o que se passava. Ele sorriu também.
Voltei a mim. Lembrei de tudo que tinha se passado meses antes e até na noite anterior. Levantei da mesa séria, agradeci pelo café e saí.
Andando pela rua, mandei uma sms pra ele. "Esquece esses últimos 15 minutos. Ainda sou aquela que você mais sente raiva agora. Se der, por favor, me esqueça."
Continuei andando. Parecia que o café tinha aberto minha mente; Eu sabia como chegar no meu lugar. Andava mais leve também... Tranquila.
O celular vibra. Nova mensagem. Era dele. "Até quando?"
Apaguei e guardei o celular.
Fiz minha parte: comecei a sair da vida dele. Fazendo estrago, já que tudo que vai bem, nunca é esquecido.