Eu morava no sétimo andar de um edifício que ficava a uns 30 minutos desse hospital.
As vias principais ainda estavam congestionadas. Reclinei mais um pouco o banco e liguei o rádio.
O que chamam de sucesso do momento, ao meu ver, nada mais são do que perturbação sonora. O pendrive estava no porta copos, coloquei no aparelho de som e deixei que as faixas, já bem conhecidas, fossem sendo executadas aleatoriamente.
Acionei o portão da garagem do prédio, entrei. Estacionei na minha vaga, peguei a pasta, acionei o alarme.
Fiz isso sem prestar atenção. No modo 'automático'.
Eu estava com os pensamentos presos num mesmo fio desde que saí do hospital.
Entrei no elevador, pressionei "07". Não me olhei no espelho, nem procurei a câmera para sorrir ao porteiro.
Eu não estava para sorrisos.
Giro as chaves do apartamento, abro a porta.
Minha esposa me olha. Ela estava sentada à mesa da sala, com uma pilha de papéis a sua frente.
O oclinhos de armação branca bem na ponta do nariz.
- Oi, amor. - ela me disse voltando a atenção aos papéis.
- Oi, minha linda.- fechei a porta e girei a chave. - Processo novo?
- Hã?
- Processo nosso? - repeti mais áspero.
- Não, não. To revendo uns detalhes de um caso passado.
- Ah.- beijei-a na testa. Larguei a minha pasta numa cadeira, sentei-me na outra.
Respirei fundo e cocei os olhos.
Quando eu queria conversar sobre algo do trabalho eu costumava dar dicas para que ela perguntasse. Dessa vez ela não perguntou.
- Você fez jantar?
- Comprei lasanha. É só tirar sua porção e esquentar, se precisar. - respondeu sem levantar a cabeça.
Fui à cozinha, tirei um pedaço da lasanha e esquentei. Pequei uma lata de refrigerante e voltei para à sala.
Comecei a por tudo para dentro sem sentir o sabor. Eu estava sério, olhando o canto oposto da da mesa. Ela, da ponta da mesa, finalmente percebeu meus sinais. Ficou me olhando e, por fim, perguntou
- Perdeu um paciente? - seus papéis não eram mais tão interessantes.
- Foi. - respondi.- Mas isso é normal.
- Eu sei que é. Não é normal você ficar assim.
Permaneci calado. Comendo.
- Quem foi?
Lembrei por mais um segundo rosto dele.
- Um garoto. Tinha nove anos.
- Poxa, amor. - ela se levantou e veio me abraçar. - Qual a história dele?
Fiquei de lado, de forma que ela pudesse sentar na minha coxa.
- Não sei bem. Pelo que disseram a babá foi pegar ele no colégio, agora no fim da tarde, e na volta pra casa foram atropelados. Ela sofreu uma fratura na perna e uns arranhões. Ele foi arrastado pelo carro.
- Ai! Coitado.
- Pois é. Ele ainda estava acordado quando chegou...
Senti um aperto mais forte no peito. Como se eu quisesse chorar. Eu não estava sendo sincero.
Ela pousou minha cabeça no seu busto. Acariciou minha nuca.
- Você conhecia ele?
- Não. Mas de alguma forma eu me identifiquei com aquele garoto. Ele segurou meu braço...apertou.- sentei meu rosto contra a pela quente dela. - Ele me olhou pedindo ajuda. Não como os outros, mas como se eu fosse o pai dele, não sei...não sei.
- E os pais dele?
- Quando meu plantão acabou eu fui na recepção perguntar sobre eles. Ligaram para o pai. Ele estava saindo do trabalho quando falaram do acidente. Ficou preso no trânsito e só chegou pouco antes de mim na recepção. Estava chorando, falando ao celular.
Houve um momento de silêncio.
- Você se parecia com ele?
Pensei bastante na imagem dele. Mãos na cabeça, rosto molhado. Desesperado.
Não olhei por mais de três segundos para ele, mas ainda podia vê-lo nitidamente.
Como eu reagiria no lugar dele? Me pareceria com ele?
- Se eu me parecia com ele? - repeti a pergunta - Acho que sim.
Por HB.