terça-feira, 29 de junho de 2010

Era dia 7 de Outubro ,

Ana se lembrava bem . Como em todos os outros dias , ela se levantou , entrou embaixo do chuveiro , lavou seus cabelos , colocou uma roupa , comeu algo e foi pra escola . Quando a garota chegou em casa , abriu seu MSN . Um convite novo . ‘Aceite’ , pensou ela . Foi por sua intuição , sempre ia . Era um garoto , chamado Bruno . Os dois começaram a conversar . Com o tempo descobriram que gostavam das mesmas bandas , das mesmas comidas , do mesmo tudo .
Tinha quase tudo em comum , exceto uma coisa : a cidade . O garoto morava em Londres . A garota , em Bolton , uma pequena cidade ao sul da Inglaterra .
Eles começaram a conversar mais e mais . Cada dia mais , cada vez mais . A mãe de Ana achou que estava viciada em internet , o que realmente estava . Ela estava certa , Ana não podia contrariá-la . A garota era apenas muito preocupada com seu futuro , não deixava de fazer lições de casa para entrar no computador . Mas assim que acabava , ligava logo o aparelho .
Era também o caso de Bruno .
O garoto sempre que chegava da escola deixava o computador ligado , com o Messenger aberto . Desligava a tela do computador , e fazia a lição . Sempre tinha pouca , então ficava esperando Ana , até 6 da tarde , que era quando a garota entrava , mais ou menos .
Os dois começaram a conversar aos 17 anos , e foi assim . No começo dos 18 anos , aconteceu a coisa mais esperada pras amigas de Ana (sim , porque as amigas sabiam de tudo , e esperavam há cerca de 9 meses algo acontecer) : Bruno a pediu em namoro .
E foi assim , se conheceram por um computador , namoravam por um computador . O que os dois tinham era maravilhoso . Uma coisa que as amigas de Ana jamais haviam experimentado , ou ouvido falar . Nem mesmo na ‘vida real’ . Eles confiavam um no outro mais que qualquer casal que todas as amigas de Ana já tinham visto , ou ouvido falar . Isso requer , realmente , muita confiança . E eles se amavam . Quando as amigas de Ana passavam o dia na casa da garota , elas viam a conversa . Elas conseguiam sentir o amor .
Eles estavam completa e irrevogavelmente apaixonados . Não havia nada que mudaria aquilo . O tempo passou , os dois ficavam mais apaixonados a cada dia (o que ia totalmente contra as idéias de Marcela , amiga de Ana . A garota pensava que a cada dia que se passasse , a tendência era o amor se esvair . Eles provaram que estava errada) . Todo dia de manhã , na hora da aula dos dois , Bruno ligava para a garota . A acordava , para começarem o dia com a voz um do outro .
Um dia o garoto apareceu com a boa notícia : ele conseguiria ir para Bolton . Passaria um dia lá , pois viajaria .
Eles se encontraram à noite , em frente à ex-escola de Ana . Ela conversou com o garoto . Ana não quis beijá-lo .

- Vou ficar dependente de você . Sei que você é uma droga pra mim , é viciante . Então se eu te beijar hoje , não vou conseguir ficar mais um minuto longe de você . A gente vai se reencontrar . E ai , vamos ficar juntos pra sempre .

Ela disse e o abraçou . Com mais força do que já abraçou outra pessoa . E o garoto se contentou em encostá-la . Ele sabia que o que Ana estava falando era verdade . Eles IRIAM se encontrar . E IRIAM passar o resto da vida juntos . Ele tinha certeza que ela era o amor da vida dele . Bom , agora a ‘maldita inclusão digital’ se transformou na melhor maldita inclusão digital .
O tempo passou rápido quando eles estavam juntos . Se divertiram muito , e Bruno gostou da simpática cidade da sua namorada . Ele foi embora no dia seguinte , cedo demais para conseguirem se despedir .
O tempo passou , e o amor dos dois só ia aumentando . Passaram-se 6 meses desde que Ana tinha conhecido seu namorado pessoalmente , e Marcela ainda não entendia por que eles não tinham se beijado .

- Any , você já parou pra pensar que pode ter sido uma chance única ?! Você foi idiota , você sabe disso , né ? – A garota dizia , sempre culpando Ana .

Mas ela sabia o que era melhor pra ela . Já tinha cansado de explicar para Marcela . Não explicaria mais uma vez . Haviam 9 meses que os dois namoravam , e um ano que se conheciam .
Eles se amavam muito , mais que qualquer pessoa que as amigas e amigos do casal já tinha visto . Um dia , Bruno apareceu com a notícia : ele conseguiu uma bolsa em uma faculdade em Bolton , e se mudaria para a cidade tão desejada .

Ana se chocou com isso . Por semanas se perguntou se sacrificaria o tanto que o garoto iria sacrificar por ele . Mas ela não era a maior fã de pensamento . Isso a fez mal .

- Any , deixa de ser besta . Você o ama , até eu posso perceber isso ! E você sabe , eu não sou a pessoa mais esperta do mundo . – Marcela disse , encorajando a amiga .

- Eu sei , Marcela , mas ... Ele tá desistindo da vida toda dele em LONDRES pra vir pra BOLTON ! Por mim ! – Ana disse – E pela bolsa que ele ganhou na faculdade , mas é mais por mim , ele me disse .

- Ana , presta atenção . – Ana olhou pra amiga . – Você não sabe quantas meninas invejam você . Não sabem mesmo . Eu, por exemplo , te invejo demais . Daria qualquer coisa pra ter um namorado como o seu .
Vocês confiam tanto um no outro , e se amam tanto . Eu tenho até nojo de ficar no quarto com você quando você ta conversando com ele . É um amor que se espalha no ar , que nossa senhora ! Eu consigo sentir os coraçõezinhos explodindo pelo quarto . Ai fica tudo rosa , e você fica com uma cara de sonho realizado pro computador ! Any , pára de subestimar o que você tem . Deixa de ser idiota .

- Você é um amor , sabia ? Marcela , não sei . Não dá . Eu não desistiria de tanto por ele , e eu acho injusto ele desistir de tanto por mim .

Marcela bufou . Porque a amiga tinha que ser tão burra ?

Meses se passaram , o tempo passava rápido . Ana não terminaria o namoro por messenger , frio demais . Ela esperaria o namorado chegar .
A garota tentava adiar o máximo possível , por mais que quisesse ver o garoto de novo . Ele tinha um cabelo lindo , e olhos mais ainda . Ana conseguiria ser invejada por todas as garotas da cidade se fosse vista com ele . Mas ela não queria inveja . Queria seguir o seu coração .
Quanto mais Ana queria adiar a situação , mais as horas corriam , e com elas os dias , as semanas , as quinzenas , os meses . O ano .
Chegou o dia ; Ana esperou o seu futuro-ex-namorado onde se encontraram meses atrás . Ela negou o beijo mais uma vez . O namorado ficou sem entender , mas aceitou .

- Olha , eu tenho que conversar com você .

- Diga . – Bruno sorriu.

- Quando você me disse ‘Vou me mudar pra Bolton’ , eu fiquei feliz . Mais feliz que já fiquei há muito tempo . Mas depois eu comecei a pensar se faria o que você ta fazendo por mim . Você desistiu de toda sua vida em Londres , Bruno .

- Eu sei . Pelo melhor motivo na face da Terra .

- Não , não é . Eu sinto que eu não to sendo justa com você . E sem ser justa com você , eu não sou justa comigo . Eu não sei se eu faria o que você fez . Eu acho que não . Eu sou egoísta demais , eu não sei . Não quero mais ser injusta com ninguém , não quero dormir pensando isso . Há meses eu penso nisso , e fico com peso na consciência . E , de verdade , eu não sei se seu amor é o suficiente pra mim .
– A garota disse e virou as costas .

Foi andando para a sua casa . E ao contrario de momentos tristes clichês , não estava chovendo . O céu estava azul , o sol brilhava , como raramente acontecia em Bolton . Mas o que estava dentro de Bruno (e de Ana) não era assim tão brilhante .
Para Ana chegar em casa , tinha de passar pela frente da casa de Marcela – era esse o motivo de um sempre estar na casa da outra ; elas moravam lado a lado . A garota passou correndo , chorando , enquanto Marcela estava na janela . Marcela saiu correndo de casa – ignorando completamente o estado critico em que se encontrava : blusa dos ursinhos carinhosos , cabelo preso em um rabo-de-cavalo mal ajeitado , short curto de florzinhas e pantufas do tigrão – indo logo para a casa da amiga . Ela bateu a campainha , e a mãe da amiga atendeu . Disse que podia subir as escadas , Ana estava em seu quarto .
Marcela subiu correndo , tropeçou , quase caiu 3 vezes – ‘Malditas escadas enormes’ , pensava – mas chegou ao quarto em segurança (lê-se sem sangue escorrendo pela cara) .

- Any ! O que foi , amor ? – A garota encontrou a amiga deitada , chorando em sua cama .

- O Bruno ! – Ana não conseguia falar direito . Por essa mini-frase Marcela tinha entendido . Não tinha mais Ana e Bruno pra sempre e sempre e sempre e sempre . Agora era Ana .

A garota aprendeu a viver com a dor . Passaram-se 5 anos , Bruno estava formado em direito , era um advogado de sucesso , ainda morando em Bolton – nunca largaria a cidade que abrigava seu , ainda , maior amor . Ana era uma fotógrafa de sucesso , ganhava a vida fotografando famosos de todo mundo – mas não saíra de Bolton também , amava a cidade com todas e cada fibra de seu ser .
Bruno era melhor amigo de Ana , Ana era melhor amiga de Bruno . Ana tinha um noivo , um executivo de sucesso , que vivia de Londres pra Bolton , de Bolton pra Londres . Já Bruno sabia : por mais que tentasse achar alguém igual à Ana , não conseguiria . Só ela seria o amor da sua vida , que ele amava excepcionalmente . Nunca iria mudar .

Ana iria passar algum tempo fora da cidade , iria para a capital , fotografar uma banda inglesa . Iria dirigindo à Londres – depois de tanto custo para tirar a carteira de motorista , agora queria mostrar ao mundo que tinha um carro e sabia guia-lo .
Um carro . Dia chuvoso . Pista dupla . Um caminhão . Visão confundida . Bebida em excesso . No que isso poderia resultar ? Não em uma coisa muito boa , com certeza . O caminhão bateu de frente com o carro de Ana . Ela não estava muito longe de Bolton , portanto ela foi levada para um hospital na cidade . O seu noivo , por sorte , estava em Bolton . Foi avisado , depois os pais , Marcela . E por ultimo , Bruno .
Ele se apressou em chegar ao hospital que Ana estava internada . Ele chegou antes mesmo de Felipe , noivo da garota . Bruno andou por corredores com luzes fluorescentes fracas , brancas , o que aumentava a aflição dele .Como estaria Ana ? A SUA Ana ? Ele nunca imaginou nada de mal acontecendo à
SUA Ana . Ela sempre seria dele , amiga ou namorada . Seria dele .
Achou o quarto em questão , 842 . Abriu a porta com cautela , e viu a imagem mais horrível que jamais poderia ter imaginado : Ana , sua Ana , deitada em uma cama de hospital , com ferimentos por todo o rosto e braços – as únicas partes de seu corpo que estavam aparentes . Ele chorou . Não queria ver a pessoa que ele mais amava em todo o universo daquele estado . ‘Frase clichê’ , pensou , ‘mas porque não eu ?’ . As lágrimas caiam com força . Ele saiu do quarto com a visão embaçada pelas lágrimas ; não sabia o que podia fazer . Ele foi para o lugar do hospital em que se era permitido fumar , e fez uma coisa que não fazia desde que tinha conhecido Ana : acendeu um cigarro . Começou a fumar , e ficou sozinho lá , encarando a parede . Imaginando se teria sido diferente se ele tivesse continuado em Londres . Ele lembrava , foi quem apoiou o curso de fotografia .

- Ah , cara ... – Ana chegou se lamentando .

- Que foi , Any ? – Bruno sorriu .

- Eu tenho que escolher o que eu vou fazer da vida , mas ... É difícil demais !

- Eu sei bem como é ... Porque não tenta fotografia ? – Bruno apontou para a máquina digital , que agora estava nas mãos da garota . – Eu sei que você adora tirar fotos .

- Bruno , sabia que você é um GÊNIO ? – Ana sorriu e abraçou o melhor amigo . SEU melhor amigo .

Se ele não tivesse sugerido o curso , Ana não estaria no hospital à essa hora . Os pensamentos profundos do garoto foram cortados quando a porta se abriu , fazendo o garoto estremecer .

- Ah , que susto , doutor . – Bruno se virou .

- Desculpe . Você é Bruno , certo ?

- Certo .

- Bom , você tem bastante contato com Ana , certo ? – Bruno balançou a cabeça positivamente . – Nesse caso , eu sinto muito . Para sobreviver , a Ana precisaria de um coração novo . A lista de espera por um coração é grande , e não sei se ela conseguirá sobreviver até chegar sua vez de receber um novo coração .
Como poderia viver em um mundo sem Ana ?! Saiu do lugar . Não podia esperar as coisas acontecerem , e ele ser egoísta e ficar em seu mundo , fumando até Ana ir pra outro lugar . Ele pegou um papel , uma caneta e escreveu um endereço , e um horário , uma hora depois daquilo . Entregou para o noivo de Ana , que agora estava na sala de espera .

- Já foi vê-la ? – Perguntou Bruno . O noivo negou com a cabeça .

Ele saiu andando , saiu do hospital . Foi para seu escritório , pegou 3 papéis grandes e digitou 3 cartas . Uma para os pais . Uma para Ana . E uma sobre os desejos que tinha . Ele tomou um remédio depois disso . E dormiu , lenta e serenamente , dormiu . Não acordaria mais . Quando o noivo de Ana chegou , encontrou Bruno deitado no chão , sem pulso . Estava morto . Em cima da mesa , 3 cartas . Um recado para ele : "Eu não gosto de você . Nunca vou gostar . Mas mesmo assim , você tem que fazer algo que não poderei fazer . Leve meu corpo para o hospital , com essa carta em cima dele . A carta que está em cima das outras . Após isso , entregue a segunda carta para Ana quando ela acordar . E quando a noticia da minha morte chegar , entregue a terceira para os meus pais."
Assim acabava a carta . Felipe não acreditava no que lia . Não acreditou , e nem precisava . Correu para o hospital em seu carro . Ele entregou a carta e o corpo do homem , que agora estava ainda mais branco . Aconteceu na hora ; o coração dele foi tirado e levado para Ana . Quando ela acordou , não muito depois , viu os pais dela , seu noivo e os pais do namorado de 6 anos atrás . Eles sorriam e choravam ; ela não entendeu . Foi quando viu a carta com a letra dele , escrito o nome dela . Ela pegou a carta e leu , então .

"Meu amor , bom dia . É hora de acordar . Eu não pude te ligar hoje , você estava ocupada . Por isso deixei essa carta . Sabe , eu não vou estar ai por um bom tempo , as pessoas sabem quando a sua hora chega . E eu aceitei a minha com a mesma felicidade que eu tinha quando te vi na frente da sua escola . A minha hora chegou quando seu fim estava próximo . Eu te prometi que te protegeria de tudo e qualquer coisa que acontecesse , e mesmo sem chamar , eu estive lá . Desta vez não me chamou , quis resolver sozinha , eu não poderia deixar . Eu resolvi dar um fim então . Eu estava ficando cansado , o trabalho pesava demais . Mas porque agora ? Eu não sei . Mas não teria sentido eu viver em um mundo que você não existe . Então eu decidi ir antes e ajeitar as coisas . Pra daqui a alguns anos nós conversarmos aqui na minha nova casa . Agora eu tenho que ir , meu amor . Esse coração no teu peito , esse coração que bate no teu peito , é o mesmo coração que está inundado do amor que você disse não ser o suficiente . É o mesmo coração que lhe dava amor todo dia . Por favor , cuide bem dele . Agora eu preciso ir , preciso descansar um pouco . Eu vou estar sempre contigo . Eu te amo !
PS : Não sei se vou conseguir te acordar amanhã . Você me perdoa por isso ?"

Então ela chorou . Chorou e abraçou os pais , os pais dele . Chorou como nunca , e tremia por tantas emoções passarem por seu corpo . Ana encarou o noivo . Terminou o noivado naquele dia . Não adiantava esconder algo que estava na cara : ela amava Bruno , e seria sempre o SEU Bruno . ELE era o homem de sua vida , não Felipe . O homem que sempre esteve lá , amando-a ao máximo . Em qualquer momento .
Ela chorou muito , e seguiu a vida . Todos os dias ela lembrava de Bruno . Viver em um mundo sem ele não fazia sentido . Mas não desperdiçaria todo o amor e que estava dentro dela . Ela podia sentir seu coração batendo . Ela lembrava a cada momento , que mesmo separados eles estavam juntos . Mas apenas uma coisa fazia seu coração se apertar , se contorcer de dor . Que fazia uma lágrima se escorrer sempre que pensava nisso .
Ela sentia falta daqueles beijos . Dos beijos que foram negados . Mas ela foi feliz . Morreu com seus oitenta e tantos anos . Mas era sempre feliz . Afinal ,
o coração do homem de sua vida batia dentro dela .

-

Créditos à Mel .

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