Um rapaz magro, de casaco branco entra no bar balançando o cabelo molhado da chuva. Procura em vão uma mesa desocupada. Senta-se no balcão, ao lado de uma jovem magra, de vestido cor de goiaba e sobretudo marrom, de maquiagem borrada.
- Boa noite. Um café forte, por favor.
Ela olha assustada para ele e vira o rosto de volta.
- Se tomares, não dormirás bem essa noite.
- Talvez eu não queira dormir, menina.
Ela olha para ele de novo, dessa vez com uma repugnância transparente.
- Ei, desculpa a grosseria. Meu nome é Pedro. Qual teu nome?
- Luiza.
- Pois bem pequena Luiza, o que fazes por aqui?
- Tomo café forte, igual a ti.
- Bem, então também não dormirás essa noite.
- Eu não durmo noite nenhuma. Minha vida resume-se a papel, lápis e café.
Ele cala-se, recebe o café que o garçom lhe trouxe. A observa de lado, e ela sempre olhando para frente, com um ponto fixo. Ele dá uma meia risada.
Passam-se minutos, longos minutos.
- Bem menina, vou para minha casa, tenho coisas a fazer. Queres companhia?
Ela, sem falar nada, deixa uma boa quantia de dinheiro em cima do balcão, veste o capuz e sai andando à frente do rapaz.
- Então diga-me, Luiza, o que fazes de verdade?
- Eu escrevo.
- Ah, eu também escrevo! - sorrindo.
Ela o olha com tom de desprezo.
- Não devias brincar com coisas sérias.
- Mas te digo a verdade, escrevo também!
Caminham pela rua molhada em silêncio.
- Diga-me, para onde estamos indo?
- Tu, eu não sei. Eu estou indo para a minha casa.
Ele dá um sorriso e olha para rua.
Ela vai entrando num jardim, e ele sempre atrás. Ela pega as chaves no bolso do sobretudo e vai abrir a porta grande.
- Ei ei ei ei, esta é tua casa? Já chegamos?
Ela dá uma gargalhada. Ele não entende o que se passa.
-Olha bem pra mim... Tenho cara de quem mora num lugar como esse?
- Bem, contando que mal vi tua cara?
Ela, novamente, se faz obscura e olha para o chão. Ignorando-o, anda de volta para a rua.
- Menina Luiza, me espera!
- Pára!
Ele a olha assustado.
- Pára de me seguir! Pára de falar meu nome! Tenho dias exaustivos e hoje não foi diferente! Me dá ao menos uma hora de descanso!
Ele a segura pelo braço.
- Olha aqui, tu não és a única no mundo. Tenho meus dias difíceis, mas nem por isso saio gritando nem fechado por aí. Meus dias com certeza não são muito diferentes dos teus. Tu fizeste meu hoje ser diferente dos 'hojes' de toda minha vida. Te encontrei, não quero te perder.
Ela, que o olhava nos olhos, abaixa a cabeça e anda. Deixando-o praticamente a falar sozinho.
- Ei, será que tu não vais dar importância ao que acabei de falar?
Ela se vira revoltada e grita:
- Desculpa, tá? Tu tem direito de fazer o que quiser, inclusive de me seguir, mas eu não sou obrigada a te dar atenção.
Ele a segura pelos braços de novo e a beija (um beijo lento, típico de novela das 8. Com um cenário bem clichê, também: meio da rua, chuva fina.). Ele para.
- Porque te sentiste obrigada a me beijar?
- Não fui obrigada.
- Então porque retribuíste? Tu gostas de mim?
Ela não sabe o que dizer, e quando tenta falar algo, gagueja. Ele ri alto dela.
Ela furiosa, o beija.
- Agora te faz mudo, ok? Somente faz o que tinhas vontade de fazer.
Ele fica sério, corado. A segue aonde quer que ela vá.
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