Sentei numa mesa de bar, confusa.
Depois de passar por tantas situações ruins, a única coisa que me veio em mente foi pegar o carro e correr pra bem longe. Beber. Sozinha.
Sentei ao canto direito, perto do banheiro feminino e do balcão.
Tinham muitos homens alí. Mas um, em especial, me chamou a atenção. Estava a falar com o garçom. Ele deveria ter uns 35 anos... Pálido, cabelo castanho claro com alguns feios grisalhos perdidos. Aparentava estar embriagado, mas falava tanto de uma mulher jovem, e com tanta firmeza, que estava concentrada nas suas palavras.
- Quer alguma coisa? – Disse uma mulher gorda, aparecendo na minha frente, interrompendo meus pensamentos.
- Não, não! Logo mais peço.
Dei um sorriso torto para a mulher e voltei a vista para o homem. Não consegui achá-lo mais; não estava mais a conversar com o garçom. Passei uma vista rápida pelo bar, mas não achei aquele rosto cansado e expressivo perdido em canto nenhum.
Fui até onde ele estava sentado.
- Ei! Onde está o homem que estava bodejando aqui? – Perguntei ao garçom.
- Foi ao banheiro, vomitar. – Falava calmo, enxugando dois copos de cachaça.
Sentei mais ao lado, para não ficar exatamente aonde ele estava.
Voltou, com uma das mãos na barriga, e a outra o apoiando por onde passava. Sentou-se, e como se eu estivesse ali há muito tempo, disse:
- Não te deixes amar, moça... Não te deixes amar!
Com certeza estava embriagado. Identifiquei logo aquele modo de falar... Aquele sotaque... Era gaúcho, também! Senti uma pontinha de antipatia pelo homem, depois um pouco de saudade precoce do meu gaúcho.
Eu sorri, para não parecer grossa.
- Concordo com o senhor. Amar só nos faz bem em certos momentos.
- Báh! Senhor não, senhor não! Tenho 38 anos... Mas sim, pequena, amar só é bom quando nos convém.
Criei uma simpatia extra rápida pelo homem. Eu sorri, meio sem graça. Concordei com ele balançando a cabeça. E antes que pudesse falar algo, ele veio me dizendo:
- Ah! Deixe-me contar-te minha história...
Não intervi; estava muito curiosa.
– Eu era feliz com aquela mulher, apesar de todos os homens que ela tinha. Pois já sabes, ela era da vida...
Eu vi uma pontinha de dor nos seus olhos a falar nisso. Se não tivesse tão interessada na história, e se ela não estivesse mantendo meus pensamentos tão longe do meu gaúcho, pediria para que parasse.
- Queria construir uma vida com ela. Filhos, casa, boa comida, tudo de melhor... Mas ela não se importava com os meus sentimentos, era egoísta demais. Pensava somente em si própria, nos seus bens materiais. Fodeu com a minha vida... Foi embora faz 2 meses com outro homem pros lados da Alemanha, e desde que ela me disse ‘Adeus’, eu venho aqui aconselhar os pobres jovens. Mas é, guria, não ames... Só vais machucar a si própria.
Me senti uma menina mimada ouvindo-o falar.
- Mas e o que acontece, se eu vos disser que já amo, e estou por um fio? – Perguntei, séria.
- Não deixe esse amor ir embora. Faça o impossível! – Disse o homem com um sorriso no rosto e um brilho estranho nos olhos.
Abri um sorriso largo, com os olhos cheios de lágrimas. Dei um beijo na testa do homem. Ele não entendeu.
- Obrigada pelo conselho, era tudo que eu precisava: incentivo! Vou correndo atrás do meu amor! – Disse já me afastando dele.
Seus olhos tinham um brilho intenso, agora. Sorria, acenando para mim.
- Vai, guria, vai! Boa sorte!
Saí correndo do bar, sorrindo, deixando várias lágrimas no caminho. Chovia muito. Entrei no carro, disquei o número do gaúcho.
- Estás em casa?
- Sim, estou. – Com a voz cansada que eu tanto gosto. – Por quê?
- Estou passando aí. – Falei desligando o celular.
Liguei o carro, acelerei e fui pro apartamento pequeno que não era muito distante do meu.
Pensava em como chegaria a sua casa, como o abraçaria, o que faria ao vê-lo... Pensava na barba roçando no meu pescoço, me causando arrepios, e realmente me arrepiava naquele momento. Pensei no homem do bar, o qual eu não sabia sequer o nome, e no conselho que ele me dera. Passei três sinais vermelhos.
Cheguei à portaria e pedi para que não fosse anunciada. Subi pelas escadas, não pensava na possibilidade de esperar elevador: demoraria muito! Talvez tudo que precisava, fossem somente umas palavras... Não queria mais pensar nisso.
Cheguei à porta branca do sétimo andar, toquei a campainha. Passei uma vista rápida ao lado esquerdo, me vi refletida no espelho. Calça jeans, botas pretas de salto alto, camiseta básica com um casaco verde-lôdo com capuz caído. Bolsa na mão direita, cabelos assanhados, maquiagem forte. Estava suando.
Ele abriu a porta, finalmente. Estava ainda com a calça jeans azul escura, folgada e a camiseta branca e larga. Cabelo um pouco molhado, também assanhado. Estava lindo!
- Mas o que fazes aqui, depois de toda discussão?
- Não quero que aceites essa proposta de emprego. Não me vejo longe de ti. – Pulei em seus braços, soltando a bolsa. – Fica, por favor!
Ele me empurrou para longe do seu corpo. Seu rosto tinha uma expressão confusa...
- Guria, não posso. É a minha vida.
Não consegui evitar a queda de duas lágrimas, uma em cada lado. Caíam escurecidas, pela tinta dos meus olhos. Ele me olhou, sentindo-se culpado; me abraçou. As lágrimas, agora, caíam de lote.
- Vê se entende: é uma chance única. Não posso desperdiçar... – Separando-me dele, novamente.
Acho que perdi a consciência nessa hora: o bati no rosto. Fiquei assustada, parada, sem reação. Segurou meus punhos forte e me balançando, gritou:
- Estás louca?
Estava chorando, desesperada.
- Não vê que não podes fazer isso comigo? Eu amo você, quero muito continuar te fazendo mais feliz que sempre foste... Superando o sentimento a cada dia! – Passando as mãos no meu rosto com força, ficando suja da tinta.
Me soltou e foi para longe. Andava de um lado para o outro, pondo as mãos na cabeça e jogando-as com força contra as próprias pernas. Eu o olhava, soluçando. Avistei a mala, quase pronta. Abaixei a cabeça, chorei mais.
- Me desculpa... Mas preciso fazer isso, guria... Vê se entende... – Murmurava devagar, com a cabeça baixa, encostado na varanda.
O olhei, longe; parei de soluçar. Levantei lenta e silenciosamente. Já de pé, com o rosto sujo de tinta preta, falei, olhando para o chão:
- Acho que não posso fazer mais nada por nós dois.
Saí, silenciosa.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
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