Uma noite quente, clara e cheia de ritmo. Cheia de palavras amigas e cigarro barato. Eu queria somente tua face rosada e tua voz doce ao alcance dos meus dedos.
Trocávamos risinhos de tempos em tempos. Em outros, gargalhadas, que eram pausadas somente pelos tragos demorados do teu cigarro. "A grana tá curta, tenho que economizar!" Achava cômico e fofo. Me fazia querer apertar tuas bochechas, do mesmo jeito que minha avó me fazia.
Passava segundinhos te olhando, analisando cada traço do teu rosto, as curvas do teu corpo magro, que esbanjava tentação. Ficavas vermelhinha, deixando as barroquinhas fundas à mostra. Morrias de vergonha de mim.
Estávamos numa intimidade surreal, pra mim. Sentadinhas no chão da varanda, tentando fazer mágicas com a fumaça do cigarro. Só nossos pés se tocavam, e só às vezes.
Dizias: "Não pinto as unhas! Uso somente base para unhas fracas." E eu te achava cada vez mais frágil...
Estava ficando tarde e mais ainda pra ir só pra casa; Convidei para dormir em minha cama enquanto eu dormiria no sofá. Aceitou, cheia de vergonha.
Levantei cedo, como de costume. Fui até o quarto. Encostada no vão da porta, te olhava dormir, toda encolhidinha de frio. Cada ossinho da tua coluna à mostra me deixava no teu desejo.
Te viraste, como se soubesse que eu estava alí. Se espreguiçou e me desejou um "bom dia" baixinho, com os olhos quase pretos apertados.
Tomou um café rápido, apressada. Disse que não podia perder a hora em plena quinta feira.
Saiu, quase correu porta afora com uma bolsa vermelha e um casaco roxo nos braços. Voltou correndo e me deu um beijo na bochecha e desejou sem olhar pra trás um outro "bom dia".
Fiquei ali por uns minutos, rindo de mim. Estava bem à vontade, só com um blusão com um dos lados caído. Voltei para minha cama, deitei. Senti teu cheiro que era forte, mas me lembrava bebês. Dormi como um anjo.
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