Consegui voltar à capital no fim da tarde de sábado. Logo que meu plantão no interior acabou apostei corrida com o tempo e cheguei rápido.
A rotina,
que é rotina, repetiu-se.
Estacionei o carro na minha vaga. Apanhei minha mala no banco de trás. Entrei no elevador e pressionei "07". Lembrei-me durante meu caminho ascendente que seria bom fazer algumas compras ainda hoje. Fiquei com isso na cabeça. Eu costumava esquecer com frequência.
Girei a chave.
- Lívia? - chamei
Não houve resposta, mas ela estava em casa. Vi seu carro na vaga ao lado da minha.
A sala ainda estava clara por causa da luminosidade do sol poente que penetrava pelas frestas da cortina.
Passos cautelosos até o quarto. Abri a porta bem devagar. O ar-condicionado estava ligado. Ela dormia toda encolhida no edredom. Deixei-a quieta.
Abri a mala largada segundos antes do chão da sala. Peguei a toalha e fui tomar um banho.
De banho tomado, voltei ao quarto em busca de roupas limpas. Vesti-me de forma confortável. Decidi ir às compras. Cogitei acordar Lívia, mas enquanto eu buscava as roupas ela parecia dormir tão profundamente que achei melhor que ela descansasse.
Fiz uma listinha do que faltava num pedaço de receita médica. Não me dei o trabalho de procurar outro papel. Era mais prático abrir a mala e pegar um no bloco.
Daí as coisas seguiram comumente.
Desci, dirigi, fiz as compras, peguei um leve congestionamento na volta, estacionei, subi, guardei as compras.
Lívia continuava dormindo.
Pedi uma pizza para o jantar. Quando chegou, tentei acorda-la. Ela me respondeu com um grunhido parecido com um 'não'.
Comi três fatias assistindo um programa sobre mineradores de ouro que passava na TV.
O programa acabou e eu já estava de barriga bem cheia. Escovei os dentes e fui me deitar.
Devia ser, no máximo, unas nove horas. Eu teria boas horas de sono até a manhã seguinte.
Acordei sentindo um vazio na cama. Lívia não estava ao meu lado. Passei a mão no celular sobre o criado mudo ao lado da cama. Era três e meia da madrugada.
Levantei e sai do quarto. A luz do banheiro estava acesa, mas a porta fechada.
- Lívia? - chamei sonolento.
Não houve resposta.
Bati na porta e chamei novamente.
- Oi. - disse ela com um gemido.
A voz dela definitivamente não estava normal.
Tentei abrir, mas estava trancada por dentro.
- Lívia, você está bem? O que está acontecendo?
Com o ouvido na porta escutei ouro gemido.
- Lívia, abra a porta! - bati com mais força.
- É só minha barriga que está ruim. - disse sufocando a voz- Pode ir dormir.
Isso me deixou preocupado.
- Tem certeza?
Silêncio.
Um baque surdo. Ela caiu no chão.
- Lívia. Lívia! Abre isso, Lívia. - eu quase esmurrava a porta.
A tranca girou. Abri a porta e a vi deitada no chão cerrando os olhos com força.
Ajoelhei-me e ergui um pouco sua cabeça. Havia sangue no assento da privada, um pouco no chão, e bastante entre suas coxas.
- Lívia, o que aconteceu? Me diz!
Ela estava quase se contorcendo. Fechava os olhos com força e gemia.
Eu tinha que levá-la a um hospital urgentemente.
Corri a procura da chave do carro. Abri porta do apartamento. Voltei ao banheiro e encontrei Lívia desmaiada.
Ergui-a com facilidade. Tinha pouca mais da metade do meu peso.
Deitei-a no banco de trás do carro e fui para o hospital.
Voei pelas avenidas da cidade. Ultrapassei sinais vermelhos. Cheguei ao pronto socorro.
- Eu preciso de uma maca! - berrei dando a volta no carro para tirar Lívia.
Entrei na emergência com elas nos braços. Coloquei-a na maca e fui acompanhando a equipe que levava ela para dentro do hospital quando uma enfermeira me segurou.
- Senhor, você não pode passar dessa porta.
- Eu sou médico. Médico.
- Entendo senhor, mas por favor deixe ela conosco.
Parei enquanto Lívia sumia por trás da porta que eu não podia passar.
- Senhor, o que ela é sua?- perguntou a enfermeira.
- Minha esposa. - respondi automaticamente.
- O que aconteceu?
Passei a mão pelo rosto.
- Eu não sei. Acordei e encontrei ela no chão do banheiro.
- Ela está grávida?
- Não.
- É hipertensa ou diabética?
...
As perguntas se seguiram até o momento em que a mesma enfermeira pediu que eu fosse ao banheiro me lavar. Não tinha percebido, mas meu braço estava sujo de sangue.
Pouco mais de uma hora depois eu estava na recepção. Mãos na cabeça, acho que chorava.
Vi meu reflexo no vidro da portaria.
...
Se eu estava parecido com o pai do garoto?
Sim, estava.
Por HB.