quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Busca interminável pelo inexistente.

Eu me deixei levar pelo tempo corrido. A falta que eu sentia tornou-se comum.
O feijão que eu cozinhava ficou sem gosto.
O onibus que eu pegava ficou mais lento.
O sexo que eu fazia tornou-se rotineiro e sem graça.
As brincadeiras já não tem tanta graça quanto antes.
A ansiedade que eu sentia com coisas novas deixou de existir.
Minha ânsia pela escritura diminuiu bastante.
Minha fome de amor? Dessa eu nem comento.

O diálogo virou monólogo.

Só o que me resta de consolo é meu café e uns cigarros amassados.
Quando me afasto de tudo, lembro de escrever e recordo o quanto é bom. Mas das coisas que listei, essa é a única que eu consigo retomar por completo, mesmo que momentaneamente.

Como diria o poeta Cazuza... O tempo não pára.
E não pára mesmo.

Por CM
segunda-feira, 19 de agosto de 2013

À vocês!


Fiquei muito feliz em perceber que há pessoas, além de Cibele, que leem meus textos.
Saber que alguém quer ler me motiva a escrever. Isso é bom.
Escrever me permite fugir desse ambiente vicioso faculdade/casa. Me ajuda a esvaziar a cabeça.
De qualquer forma, obrigado a todos vocês que acompanham as postagens do blog.
Aproveitem bem meus, seus, nossos textos.

Aliás, "Relato de um plantonista" terá, pelo menos, mais cinco capítulos. Então aguardem!

Por HB

O Mundo


Eu me perdi por querer viver
Às vezes acho que eu não sou daqui,
Não tente me entender

Não pense que eu fui tão bom assim pra você
Ninguém enxerga através de mim
Eu desço a rua olhando pro lado pra ver

Se o mundo ainda é igual ao meu
Se o meu nome ainda está ao lado do teu
Se o mundo ainda é igual ao meu
Se o meu nome ainda está ao lado do teu

Eu não sorri e não me deixei chorar
Mas não pense que eu não sofri
Por viver sem tentar


E quando penso em tudo que eu perdi
Por não dizer o que eu queria
Eu desço a rua olhando pro lado pra ver
Se o mundo ainda é igual ao meu
Se o meu nome ainda está ao lado do teu
Se o mundo ainda é igual ao meu
Se o meu nome ainda está ao lado do teu

Tente entender que ainda vivo tão sozinho
E te ver assim me faz esquecer
Tudo o que eu não quero mais

Então eu vou sozinho a caminhar
E sem destino eu vou tentando te encontrar
Pra te dizer que eu preciso me achar
Pra viver sem me perder

O mundo não é mais o meu
O mundo não é mais o meu

(Rodrigo Tavares - Abril)

Por HB

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Relato de um plantonista. [04]

- Senhor Pedro? - chamou uma voz feminina.
- Já vou. - levantei e já me encontrei na recepção do hospital.
- Senhor, se acalme.
Me dei conta do que estava acontecendo.
- A médica que atendeu sua esposa gostaria de falar com o senhor.
- Como está minha esposa?
- O quadro dela exige cuidado. A médica pode lhe explicar melhor. Me acompanhe, por favor.
Saiu a minha frente. Entramos no elevador e fomos até o quarto andar.
- É por aqui. - disse batendo numa porta. Ela abriu um pouco. - Doutora, ele está aqui. Pode entrar.
Entrei.
Fiquei surpreso ao ver que a médica era uma ex colega de faculdade.
- Oi, Angelina.
- Pedro? Você é o esposo da paciente de deu entrada aqui nessa madrugada? - ela parecia mais surpresa que eu.
- Sou sim. Lívia é o nome dela.
- Isso mesmo. Lívia. - Ela me olhou. Pareceu me analisar. Não nos víamos a um bom tempo. - Pedro, sente, por favor. Vai ser mais fácil explicar a situação.
- O que aconteceu co Lívia? Qual é o estado dela?
Angelina endireitou-se na cadeira.
- Bom, como você percebeu ela estava apresentando hemorragia média. Também estava com febre. - ele me encarava. eu estava muito atento. - Conseguimos conter a hemorragia, e agora ela está recebendo sangue. Porém a febre continua alta.
- Mas, Angelina, eu não consigo entender como ela ficou assim. Eu saí de casa na sexta de manhã para dar um plantão no interior, voltei ontem de tarde e ela estava dormindo. Agora de madrugada eu encontrei ela no chão do banheiro. Não entendo.
- Pedro, vocês planejavam ter filhos?
Franzi a testa.
- Sim. Queríamos crianças. Por quê? O que tem a ver?
- Pedro, eu quero que você tente entender. Lívia está com o útero dilatado. A hemorragia foi causada por, como posso dizer, agressões graves na parede do útero dela. O quadro de infecção está bem acentuado. Tudo me leva a crer, Pedro, que ela tenha feito um aborto clandestino.
O fundo do meus estômago despencou. Afundei na cadeira.
- Impossível.- gaguejei.
- Pedro, você é médico. Sabe que o que estou falando está certo. Eu creio nessa hipótese do aborto. - Ela fez uma pausa. Eu estava olhando fixamente para nada. - Não sei o que pode ter levado ela a fazer isso. Talvez por medo da sua reação. Talvez por medo de qualquer coisa que tenha passado pela cabeça dela. Isso é algo que só saberemos se ela melhorar.
- Eu não acredito...- balancei a cabeça negativamente. - Qual a chance, Angelina? Chance do aborto?
- Sinceramente eu não consigo imaginar qualquer outro motivo para ela se encontrar no atual estado.
- Puta merda! - pressionei as mãos contra o rosto. Senti meus olhos queimarem. Uma maldita lágrima pulou por entre meus dedos. Levantei a cabeça e respirei fundo enxugando as bochechas.
- Pedro, não se culpe. Foi uma decisão dela. Você saberá o motivo na hora certa.
- O motivo eu já sei, Angelina. - levantei o olhar até encontrar com o dela. - Eu sou estéril.


Por HB.   

Relato de um plantonista. [03]

Consegui voltar à capital no fim da tarde de sábado. Logo que meu plantão no interior acabou apostei corrida com o tempo e cheguei rápido.
A rotina, que é rotina, repetiu-se.
Estacionei o carro na minha vaga. Apanhei minha mala no banco de trás. Entrei no elevador e pressionei "07". Lembrei-me durante meu caminho ascendente que seria bom fazer algumas compras ainda hoje. Fiquei com isso na cabeça. Eu costumava esquecer com frequência.
Girei a chave.
- Lívia? - chamei
Não houve resposta, mas ela estava em casa. Vi seu carro na vaga ao lado da minha.
A sala ainda estava clara por causa da luminosidade do sol poente que penetrava pelas frestas da cortina.
Passos cautelosos até o quarto. Abri a porta bem devagar. O ar-condicionado estava ligado. Ela dormia toda encolhida no edredom. Deixei-a quieta.
Abri a mala largada segundos antes do chão da sala. Peguei  a toalha e fui tomar um banho.
De banho tomado, voltei ao quarto em busca de roupas limpas. Vesti-me de forma confortável. Decidi ir às compras. Cogitei acordar Lívia, mas enquanto eu buscava as roupas ela parecia dormir tão profundamente que achei melhor que ela descansasse.       
Fiz uma listinha do que faltava num pedaço de receita médica. Não me dei o trabalho de procurar outro papel. Era mais prático abrir a mala e pegar um no bloco.
Daí as coisas seguiram comumente.
Desci, dirigi, fiz as compras, peguei um leve congestionamento na volta, estacionei, subi, guardei as compras.
Lívia continuava dormindo.
Pedi uma pizza para o jantar. Quando chegou, tentei acorda-la. Ela me respondeu com um grunhido parecido com um 'não'.
Comi três fatias assistindo um programa sobre mineradores de ouro que passava na TV.
O programa acabou e eu já estava de barriga bem cheia. Escovei os dentes e fui me deitar.
Devia ser, no máximo, unas nove horas. Eu teria boas horas de sono até a manhã seguinte.


Acordei sentindo um vazio na cama. Lívia não estava ao meu lado. Passei a mão no celular sobre o criado mudo ao lado da cama. Era três e meia da madrugada.
Levantei e sai do quarto. A luz do banheiro estava acesa, mas a porta fechada.
- Lívia? - chamei sonolento.
Não houve resposta.
Bati na porta e chamei novamente.
- Oi. - disse ela com um gemido.
A voz dela definitivamente não estava normal.
Tentei abrir, mas estava trancada por dentro.
- Lívia, você está bem? O que está acontecendo?
Com o ouvido na porta escutei ouro gemido.
- Lívia, abra a porta! - bati com mais força.
- É só minha barriga que está ruim. - disse sufocando a voz- Pode ir dormir.
Isso me deixou preocupado.
- Tem certeza?
Silêncio.
Um baque surdo. Ela caiu no chão.
- Lívia. Lívia! Abre isso, Lívia. - eu quase esmurrava a porta.
A tranca girou. Abri a porta e a vi deitada no chão cerrando os olhos com força.
Ajoelhei-me e ergui um pouco sua cabeça. Havia sangue no assento da privada, um pouco no chão, e bastante entre suas coxas.
- Lívia, o que aconteceu? Me diz!
Ela estava quase se contorcendo. Fechava os olhos com força e gemia.
Eu tinha que levá-la a um hospital urgentemente.
Corri a procura da chave do carro. Abri  porta do apartamento. Voltei ao banheiro e encontrei Lívia desmaiada.
Ergui-a com facilidade. Tinha pouca mais da metade do meu peso.
Deitei-a no banco de trás do carro e fui para o hospital.
Voei pelas avenidas da cidade. Ultrapassei sinais vermelhos. Cheguei ao pronto socorro.
- Eu preciso de uma maca! - berrei dando a volta no carro para tirar Lívia.
Entrei na emergência com elas nos braços. Coloquei-a na maca e fui acompanhando a equipe que levava ela para dentro do hospital quando uma enfermeira me segurou.
- Senhor, você não pode passar dessa porta.
- Eu sou médico. Médico.
- Entendo senhor, mas por favor deixe ela conosco.
Parei enquanto Lívia sumia por trás da porta que eu não podia passar.
- Senhor, o que ela é sua?- perguntou a enfermeira.
- Minha esposa. - respondi automaticamente.
- O que aconteceu?
Passei a mão pelo rosto.
- Eu não sei. Acordei e encontrei ela no chão do banheiro.
- Ela está grávida?
- Não.
- É hipertensa ou diabética?
...

As perguntas se seguiram até o momento em que a mesma enfermeira pediu que eu fosse ao banheiro me lavar. Não tinha percebido, mas meu braço estava sujo de sangue.

Pouco mais de uma hora depois eu estava na recepção. Mãos na cabeça, acho que chorava.
Vi meu reflexo no vidro da portaria.
...
Se eu estava parecido com o pai do garoto?
Sim, estava.


Por HB.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Relato de um plantonista. [02]

Eu e minha esposa, Lívia, estávamos fazendo amor numa floresta, eu acho. Não lembro das árvores, só das folhas secas sob nós. O calor de suas pernas. O arfar da respiração. Alguém chamando ''Doutor...''
Doutor?
"Doutor..." - chamou outra vez.
Abri os olhos para o teto escuro. A luminosidade era pouco e entrava pela porta semi aberta. Uma silhueta feminina se esgueirava. "Doutor...", voltou a chamar.
- Oi.
- Doutor, chegou uma sutura.- falou a enfermeira.
- Diga que já estou indo.
- Certo.

Levantei coçando os olhos. Fui ao banheiro jogar água fria no rosto. Me balancei para acordar mais. Com o óculos sobre o nariz saí para ver o paciente.
Na sala de sutura estava um rapaz de uns vinte e poucos anos. Só de bermuda, com braço sujo de sangue coagulado,e apenas um corte de uns seis centímetros sobre a sobrancelha. O corte já estava limpo, e o material de sutura estava pronto. Agradeci a enfermeira e ela saiu.
- Qual seu nome? - perguntei calçando as luvas.
- Rodolfo.
Percebi que ele estava bêbado.
- Rodolfo, eu vou aplicar uma anestesia pra a gente fazer a sutura sem doer, está certo?
- Mais a anestesia vai doer?
- Não, não. A agulha é bem pequena, está vendo? - Apliquei uma anestesia de leve. Ele, bêbado como estava, nem precisava. Mas pelo fato que ter perguntado se a anestesia iria doer, percebi que ele não era, como posso dizer, muito "macho". A anestesia demoraria uns dois minutinhos para fazer efeito. Puxei conversa.
- Como foi esse corte, Rodolfo?
- Eu caí quando tava saindo da piscina.
A bermuda dele realmente parecia estar molhada.
- A festa estava boa, não era? - Ironizei. 
Devia ser umas duas da madrugada de um sábado. Meu plantão, aos sábados, era num hospital numa cidadezinha do interior. Costumava ser tranquilo, e eu dormia. Só algumas vezes que um bebum desmaiava em alguma budega e era levado ao hospital por seus amigos também bebuns.
- Festa? - resmungou se esforçando para se manter sentado.- Eu queria era morrer!
Fique surpreso.
- Ôpa! Que conversa  é essa rapaz?
Ele começou a balançar a cabeça negativamente. Cheguei a pensar que ele perderia o equilíbrio.
- Ela não 'pudia' ter feito aquilo não.
Um bebum que lamenta por uma mulher. Já vi isso antes.
- Ela quem?- perguntei já deduzindo a resposta.
- Janaína. Minha namorada.
- Não acredito! E o que Janaína, tua namorada, fez? -  Confesso que estava me divertindo.
Depois de alguns minutos de uma história que não parecia ter começo nem fim, interrompida inúmeras vezes por gemidos quando eu comecei a fazer a sutura, eu entendi que Janaína era balconista de loja e que estava tendo um caso com seu chefe. Rodolfo, ao descobrir tudo brigou com ela, e eles acabaram o namoro. Ele, depois disso, encheu a cara de aguardente e tentou se matar afogado na piscina de seu sobrinho, que ele repetiu três vezes que era filho da sua irmã.
Terminada a sutura, tentei dar uns conselhos.
- Rapaz, tu esfria cabeça. Pensa direitinho. Tenta falar com Janaína. e...
- Não! Falo com aquela rapariga não. Ela pensa que eu sou o...- e recomeçou a ladainha.
Quando os ânimos acalmaram eu chamei a irmã dele, que estava do lado de fora da sala, e entreguei uma receita com o nome do anti-inflamatório que Rodolfo deveria tomar.
Já de saída, a irmã de Rodolfo perguntou:
- Doutor, o que ele falou pra o senhor?
 Eu sorri.
- Falou muito numa tal de Janaína.
- Misericórdia! Faz mais de seis meses que ela terminou com ele, doutor. E toda vez da que ele começa a 'roer' por ela, bebe e fica assim.
Fui surpreendido.
- Muito obrigada, doutor. Tchau.
- Tchau.
Fiquei sentado uns minutinhos pensando e rindo da história de Rodolfo que depois de tanto tempo ainda não tinha aceitado o fim do relacionamento. Sei que não devia achar graça, mas ele me contou tudo com tanta 'veracidade' que eu juraria que tudo aconteceu dias atrás.
Me deixei enganar pela conversa de um bebum apaixonado.
Voltei para meu quarto rindo de mim mesmo.
Deitei na cama, fechei os olhos. Sorri só mais um pouquinho, e tentei voltar aos braços de Lívia sob as folhas da floresta.


Por HB.