Doutor?
"Doutor..." - chamou outra vez.
Abri os olhos para o teto escuro. A luminosidade era pouco e entrava pela porta semi aberta. Uma silhueta feminina se esgueirava. "Doutor...", voltou a chamar.
- Oi.
- Doutor, chegou uma sutura.- falou a enfermeira.
- Diga que já estou indo.
- Certo.
Levantei coçando os olhos. Fui ao banheiro jogar água fria no rosto. Me balancei para acordar mais. Com o óculos sobre o nariz saí para ver o paciente.
Na sala de sutura estava um rapaz de uns vinte e poucos anos. Só de bermuda, com braço sujo de sangue coagulado,e apenas um corte de uns seis centímetros sobre a sobrancelha. O corte já estava limpo, e o material de sutura estava pronto. Agradeci a enfermeira e ela saiu.
- Qual seu nome? - perguntei calçando as luvas.
- Rodolfo.
Percebi que ele estava bêbado.
- Rodolfo, eu vou aplicar uma anestesia pra a gente fazer a sutura sem doer, está certo?
- Mais a anestesia vai doer?
- Não, não. A agulha é bem pequena, está vendo? - Apliquei uma anestesia de leve. Ele, bêbado como estava, nem precisava. Mas pelo fato que ter perguntado se a anestesia iria doer, percebi que ele não era, como posso dizer, muito "macho". A anestesia demoraria uns dois minutinhos para fazer efeito. Puxei conversa.
- Como foi esse corte, Rodolfo?
- Eu caí quando tava saindo da piscina.
A bermuda dele realmente parecia estar molhada.
- A festa estava boa, não era? - Ironizei.
Devia ser umas duas da madrugada de um sábado. Meu plantão, aos sábados, era num hospital numa cidadezinha do interior. Costumava ser tranquilo, e eu dormia. Só algumas vezes que um bebum desmaiava em alguma budega e era levado ao hospital por seus amigos também bebuns.
- Festa? - resmungou se esforçando para se manter sentado.- Eu queria era morrer!
Fique surpreso.
- Ôpa! Que conversa é essa rapaz?
Ele começou a balançar a cabeça negativamente. Cheguei a pensar que ele perderia o equilíbrio.
- Ela não 'pudia' ter feito aquilo não.
Um bebum que lamenta por uma mulher. Já vi isso antes.
- Ela quem?- perguntei já deduzindo a resposta.
- Janaína. Minha namorada.
- Não acredito! E o que Janaína, tua namorada, fez? - Confesso que estava me divertindo.
Depois de alguns minutos de uma história que não parecia ter começo nem fim, interrompida inúmeras vezes por gemidos quando eu comecei a fazer a sutura, eu entendi que Janaína era balconista de loja e que estava tendo um caso com seu chefe. Rodolfo, ao descobrir tudo brigou com ela, e eles acabaram o namoro. Ele, depois disso, encheu a cara de aguardente e tentou se matar afogado na piscina de seu sobrinho, que ele repetiu três vezes que era filho da sua irmã.
Terminada a sutura, tentei dar uns conselhos.
- Rapaz, tu esfria cabeça. Pensa direitinho. Tenta falar com Janaína. e...
- Não! Falo com aquela rapariga não. Ela pensa que eu sou o...- e recomeçou a ladainha.
Quando os ânimos acalmaram eu chamei a irmã dele, que estava do lado de fora da sala, e entreguei uma receita com o nome do anti-inflamatório que Rodolfo deveria tomar.
Já de saída, a irmã de Rodolfo perguntou:
- Doutor, o que ele falou pra o senhor?
Eu sorri.
- Falou muito numa tal de Janaína.
- Misericórdia! Faz mais de seis meses que ela terminou com ele, doutor. E toda vez da que ele começa a 'roer' por ela, bebe e fica assim.
Fui surpreendido.
- Muito obrigada, doutor. Tchau.
- Tchau.
Fiquei sentado uns minutinhos pensando e rindo da história de Rodolfo que depois de tanto tempo ainda não tinha aceitado o fim do relacionamento. Sei que não devia achar graça, mas ele me contou tudo com tanta 'veracidade' que eu juraria que tudo aconteceu dias atrás.
Me deixei enganar pela conversa de um bebum apaixonado.
Voltei para meu quarto rindo de mim mesmo.
Deitei na cama, fechei os olhos. Sorri só mais um pouquinho, e tentei voltar aos braços de Lívia sob as folhas da floresta.
Por HB.
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