domingo, 29 de dezembro de 2013

Relato de um plantonista. [09]

- Qual a proposta?
Um traço de sorriso apareceu nos lábios de Angelina.
- Você conhece a organização humanitária Médicos Sem-fronteira? - ela parecia disposta a me explicar caso eu respondesse não.
- Sim, conheço.
- Bom, dentro de uma mês um grupo aqui do Brasil vai partir para Moçambique para dar apoio as vítimas da guerra civil. Eu estarei nesse grupo e por isso vim convidar você. É uma missão de seis meses. Esse ano ainda vocês estará de volta ao Brasil caso não queria ficar por mais tempo.
- Angelina, você está me chamando para ir numa guerra?
A ideia não me parecia nem um pouco agradável.
- Estou te chamando, Pedro, para um lugar onde a medicina que você aprendeu é necessária, e onde o juramento que fez é justo e verdadeiro. - ela falara num tom levemente agressivo.
- Vamos ver. Eu deixo o Brasil, fico no meio de um guerra, arrisco minha vida, cuido da dos outros com material e estrutura limitados...
- Sim, vai ser exatamente assim. E pelo que vejo você não está simpático a nada disso. Tudo bem, eu disse que  a escolha era sua. - levantou-se. Lançou um sorriso azedo pra mim na tentativa de disfarçar o sabor da missão não cumprida. - Eu acho que já vou indo. Obrigado por me receber.
- Angelina - ela já chegava na porta. - Eu vou!
- Vai? - surpreendeu-se
"Vai?"
-Sim, eu vou. Eu talvez realmente não esteja muito bem. Você disse que eu poderia ver isso como uma forma de recomeçar...se for assim, eu aceito seu convite.
Angelina me retribuiu com um sorriso largo e sincero.
- Fico muito feliz. Feliz mesmo. Amanhã passo aqui para te entregar o termo de compromisso e uma lista com alguns documentos que você deve entregar na sede da organização.
- Certo. Perfeito. - balancei a cabeça - Te esperarei amanhã. - sorri.
Angelina ia passando pela porta quando fez o adendo.
- Pedro, eu te aconselho a parar de beber e limpar o apartamento. Alguns vizinhos já comentaram com o porteiro sobre o cheiro que vem daqui.
Eu ri, ruborizado pelo constrangimento.
- Limparei sim.
- Ok! - Angelina me deu um sorriso simpático - Até amanhã, Pedro. Tchau.
- Até amanhã. Tchau.
Não esperei para vê-la entrar no elevador.
Tranquei a porta do apartamento.
- É hora que começar a organizar minha vida. - disse à mim mesmo.
Virei e deparei com a sala repleta de lixo.
"Se é para organizar a vida, a sala é um bom começo"
Eu ri.
- Então vamos lá!


Por HB. 
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Relato de um platonista. [08]

"Ela ficava linda quando cozinhava, não era?"
- Pena que não fazia isso com frequência. - respondi a mim mesmo.
"Você sabe que a culpa é sua. A culpa por tudo é sua."
Apertei com mais força o gargalo da garrafa de vodka. Quantas delas já haviam pelo chão do apartamento no sétimo andar?
Algumas cervejas, depois minha colação de vinho, depois vinho barato. Mas eu estava demorando muito para apagar. Vodka! Dez vezes destilada...dez vezes mais cara. Mas o que importa é o álcool. Agora o que tenho em minhas mãos? Uma porcaria alcoólica que mais parece tiner.
Bebi mais.
"Isso mesmo. Beba. Morra!"
Meu corpo foi se inclinando. Já estava com o rosto no chão. Dormi.

Acordo, não sei quanto tempo depois, com a campainha do interfone tocando. Tento me arrastar por entre as garrafas vazias e embalagens de comida pronta. É difícil.
O interfone toca outra vez.
"Será que pedi comida?"
O esforço era muito. Parei.
Antes que eu conseguisse adormecer outra vez, alguém bate na porta. Olhei-a como se fosse abri-la por telecinese. Batem outra vez.
- Pedro, você está aí? Aqui é Angelina.
"Angelina?"
- Angelina...- grunhi - ...já vou.
Cambaleei até a porta, tirei a corrente, destranquei e abri.
Angelina fez um careta. Talvez pela minha aparência ou pelo cheiro de podre que vinha do apartamento.
- Nossa! Pedro...- eu sabia que estava mal, mas o reflexo no rosto dela mostrava-me horrível.
- Entra.
Algumas caixas de comida chinesa escureciam de mofo sobre o sofá. Apressei em jogá-las num outro canto.
Indiquei para que ela se sentasse.
- Pedro - ela parecia tentar organizar os pensamentos - a quanto tempo vc está aqui? A quanto tempo não sai de casa?
Refiz mentalmente os meus últimos dias. Entretanto havia uma névoa que não me permitia enxergar com clareza.
- Que dia é hoje? - perguntei levantando a procura de uma sacola de compras. Achei sobre  balcão da cozinha com apenas uma garrafa de vodka. Vasculhei o fundo procurando a nota fiscal.
- Hoje é dia 26.
Conferi a nota.
- Faz cinco dias que não saio.
- Foi a última vez que comprou bebida, então?
Confirmei com a cabeça. Eu me sentia envergonhado agora.
Ela respirou fundo, pensou.
- Pedro, eu sei que depois que sua esposa faleceu você se demitiu de todos os empregos. - ela me olhava diretamente. -  Pelo estado desse apartamento eu suponho que você só tem feito beber vodka e comer pizza - chutou de leve uma caixa aos seus pés.
Permaneci atrás do balcão tentando me proteger das verdades.
Ela me olhava fixamente.
- Eu... - pigarreei - tenho tirado um tempo pra mim. - sempre menti mal.
- Estou percebendo como você tem cuidado de si mesmo.
Ficamos em silêncio.
- Escuta, Pedro. - ela parecia mais decidida a falar - Eu vim hoje aqui para te chamar pra tomar um café. Saber como você está, como tem encarado...e te fazer uma proposta. Na verdade, se você estivesse bem, seria mais um convite.
Fitei-a com atenção.
- Entretanto, - ela prosseguiu - visto sua situação, você pode conceber isso como uma oportunidade de recomeçar a vida. Claro que tudo vai depender apenas da sua vontade. Agora é com você, Pedro. Quer ter uma vida outra vez?


Por HB.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Natural... Normal.

Uma pergunta e uma resposta grossa.
Uma briga.
Xingamentos na mente, só na mente.
Ignoro-os.
Saio.
Procuro meus cigarros.
O telefone toca.
"Porra!"
Entro e atendo.
Desligo.
Saio.
Pego o isqueiro.
Telefone toca de novo.
Raiva sobe à cabeça.
Entro, atendo, saio.
Acendo o cigarro.
O telefone toca.
"Ah, vá! Tá me zoando."
Deixo o cigarro,
entro, atendo...
Desligo.
Desligo o telefone.
Saio, pego o cigarro (queimado, já na metade),
fumo.
A raiva percorre o corpo todo.
Tremo!
Penso, penso, penso...
E penso.
Penso em ligar,
mas porra, telefone de novo?
Esqueço.