- Pena que não fazia isso com frequência. - respondi a mim mesmo.
"Você sabe que a culpa é sua. A culpa por tudo é sua."
Apertei com mais força o gargalo da garrafa de vodka. Quantas delas já haviam pelo chão do apartamento no sétimo andar?
Algumas cervejas, depois minha colação de vinho, depois vinho barato. Mas eu estava demorando muito para apagar. Vodka! Dez vezes destilada...dez vezes mais cara. Mas o que importa é o álcool. Agora o que tenho em minhas mãos? Uma porcaria alcoólica que mais parece tiner.
Bebi mais.
"Isso mesmo. Beba. Morra!"
Meu corpo foi se inclinando. Já estava com o rosto no chão. Dormi.
Acordo, não sei quanto tempo depois, com a campainha do interfone tocando. Tento me arrastar por entre as garrafas vazias e embalagens de comida pronta. É difícil.
O interfone toca outra vez.
"Será que pedi comida?"
O esforço era muito. Parei.
Antes que eu conseguisse adormecer outra vez, alguém bate na porta. Olhei-a como se fosse abri-la por telecinese. Batem outra vez.
- Pedro, você está aí? Aqui é Angelina.
"Angelina?"
- Angelina...- grunhi - ...já vou.
Cambaleei até a porta, tirei a corrente, destranquei e abri.
Angelina fez um careta. Talvez pela minha aparência ou pelo cheiro de podre que vinha do apartamento.
- Nossa! Pedro...- eu sabia que estava mal, mas o reflexo no rosto dela mostrava-me horrível.
- Entra.
Algumas caixas de comida chinesa escureciam de mofo sobre o sofá. Apressei em jogá-las num outro canto.
Indiquei para que ela se sentasse.
- Pedro - ela parecia tentar organizar os pensamentos - a quanto tempo vc está aqui? A quanto tempo não sai de casa?
Refiz mentalmente os meus últimos dias. Entretanto havia uma névoa que não me permitia enxergar com clareza.
- Que dia é hoje? - perguntei levantando a procura de uma sacola de compras. Achei sobre balcão da cozinha com apenas uma garrafa de vodka. Vasculhei o fundo procurando a nota fiscal.
- Hoje é dia 26.
Conferi a nota.
- Faz cinco dias que não saio.
- Foi a última vez que comprou bebida, então?
Confirmei com a cabeça. Eu me sentia envergonhado agora.
Ela respirou fundo, pensou.
- Pedro, eu sei que depois que sua esposa faleceu você se demitiu de todos os empregos. - ela me olhava diretamente. - Pelo estado desse apartamento eu suponho que você só tem feito beber vodka e comer pizza - chutou de leve uma caixa aos seus pés.
Permaneci atrás do balcão tentando me proteger das verdades.
Ela me olhava fixamente.
- Eu... - pigarreei - tenho tirado um tempo pra mim. - sempre menti mal.
- Estou percebendo como você tem cuidado de si mesmo.
Ficamos em silêncio.
- Escuta, Pedro. - ela parecia mais decidida a falar - Eu vim hoje aqui para te chamar pra tomar um café. Saber como você está, como tem encarado...e te fazer uma proposta. Na verdade, se você estivesse bem, seria mais um convite.
Fitei-a com atenção.
- Entretanto, - ela prosseguiu - visto sua situação, você pode conceber isso como uma oportunidade de recomeçar a vida. Claro que tudo vai depender apenas da sua vontade. Agora é com você, Pedro. Quer ter uma vida outra vez?
Por HB.
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