domingo, 22 de junho de 2014

A Viola

Cheguei perturbado.
Precisava de alívio fácil
até banal
que não chamasse
meu nome no fim.

Vi minha viola
velha empoeirada.
Largada sozinha
tímida a me olhar.

Nos abraçamos
meus braços em suas curvas
uma carícia, um sorriso
começamos a amar.

Meus dedos a tocavam
como da primeira vez.
Seus sons já conhecidos
me pareceram tão novos.

E tocamos
E amamos.
E cansamos juntos.

Ela desafinou
eu sorri satisfeito
houve um breve acorde
a última nota.

Agradeci por tudo.
Guardei-a no final
sabendo que ela desejava
lá do canto dela
que eu tivesse outro dia ruim
e voltasse a procurá-la.


Por HB.

(maconha) Sobre o Tempo.

Na natureza o tempo não existe. A vida não cabe na linearidade temporal que o Homem criou. A Lua tem seu ciclo, assim como as águas e as gerações das borboletas. O tempo como uma seta, na verdade, é um reflexo do espírito egoísta humano; tendencioso a organizar a própria vida de forma que possa conquistar tudo ao seu redor.


Por HB.

Chuva.

Gosto da chuva por causa do seu incrível poder de subverter a ordem das coisas. A chuva em sua simplicidade quebra completamente o protagonismo do homem sobre a sua própria vida. A chuva é tão eficiente nesse aspecto que é pensando nela , num dia chuvoso, que se escolhe a roupa que se veste, o calçado que se usa, o caminho que se toma, e se decide pela hora que se sai ou chega em casa. Apesar disso tudo, volto a observar a simplicidade da chuva. Todo o resto muda, só ela que continua sendo chuva; e ela não se importa se sua chegada vem com bênçãos ou maldições. Ela somente cai e ponto!

(as vezes eu queria ser chuva e protagonizar a vida de alguém sem necessariamente me importar com isso)


Por HB. 

Leite e canela

Ai de mim poder ter
um dia o calor do teu abraço.

Sentir sem pudor
tua pele macia
e branca como leite
escorrer por meu corpo.

Tê-la comigo daria fim
as borboletas que se
agitam dentro de mim
quando sinto o cheiro
do teu cabelo cor de canela.

Do meu canto
por vezes desejei
beijar teus lábios cheios
saboreá-los na doçura
que encontro no teu corpo.

Essa doçura me acalma
me inquieta
me alimenta
e me esfomeia.

Por HB. 

Café para Mariana

[...]
Na manhã de quinta-feira, acordei pouco depois o nascer do Sol. Minhas ineficientes cortinas sempre permitiam que as luzes matinas avisassem que um novo dia havia começado.
A cama era suficientemente pequena para um só, mas quando Mariana dormia comigo eu tinha a rápida impressão que a menor distância que houvesse entre nós era grande demais, e por isso eu me certificava de que ela estaria sempre por perto abraçando-a algumas vezes durante a madrugada.
Levantei devagar tentando não remexer muito. Calcei os chinelos e fui, a passos arrastados, para a cozinha. A garrafa térmica ainda sobre a pia foi balançada: "Ainda resta algo!", pensei. Pus o conteúdo numa caneca que durante a noite tinha feito companhia à garrafa. Deduzi, pelo círculo caramelo no fundo da caneca, que ela já tinha sido usada. Por mim? Por Mariana? Que importa?! De uns tempos pra cá éramos praticamente um só. Eu finalmente me sentia completo.
Adocicava a bebida...O Charlie Brown me sorria estupidamente da estampa da caneca; o Snoopy ao seu lado parecia já ter se acostumado. Uma formiguinha apareceu se esgueirando pelo canto do balcão. Matei-a. Lembrei do meu catequista de quando era garoto. O seminarista Sérgio nos dizia: "Não se deve matar nenhum animal intencionalmente. Quem faz isso vai para o inferno". Um tom sombrio devia cobrir meu rosto infantil da épico. Voltando à minhas cozinha, balbuciei "Que o diabo me carregue", e ri.
De volta ao quarto, arrastei a poltrona para o lado da cama. Busquei meu café, sentei, e comecei a saboreá-lo. Eu observava incansavelmente minha Mariana adormecida. Parcialmente coberta, se expunha aos meus olhos indiscretos. Eu a via, e minha visão não cansava dela.
O ventilador completou seu ciclo de para-lá-para-cá algumas muitas vezes. Mariana começou a acordar. Um fresta no seu olho semiaberto brilhou, e eu sorri.
"Café?", ofereci inclinando a caneca. Ela me deu um sorriso torto e virou envergonhada pela cara amassada e o cabelo assanhado. Observei as linhas de suas costas, da cintura, e da coluna vertebral; tudo coberto por uma pele morena clara como quando se coloca leite demais no café.
Deixei a caneca vazia de lado e me acomodei numa margem do colchão. Tateei a pele nua da cintura ao quadril. Encostei a ponta do nariz em seu cabelo e cheirei. Aquilo me acalmava. Por último dei um beijo na bochecha quente.  
"Ei,...", ela sussurrou rouca, "eu quero o café."
[...]

Por HB.

Quem sou eu?

Eu sou a personificação da antítese
Sou o sol que nasce e não brilha
Sou o vazio por onde passa o eco
Sou o solitário acompanhado

Sou tudo isso, o contrário de tudo isso, um pouco mais e outro menos.

E assim vou me definindo.
Sem traço
sem parâmetro
sem margem...só o fluxo.

Por HB e IM
quinta-feira, 5 de junho de 2014

Cold night

Saiu sem se despedir. Coisas aconteceriam naquela noite.
Ela, sozinha, mostrou que pode. Fez acontecer, sendo mulher, mãe, pai e independente.
Torço pra que ela não leve essa experiência como decisão fixa. Ela pode, ela é boa.
Mas é melhor ainda quando não está sozinha.

Por CM.