domingo, 22 de junho de 2014

Café para Mariana

[...]
Na manhã de quinta-feira, acordei pouco depois o nascer do Sol. Minhas ineficientes cortinas sempre permitiam que as luzes matinas avisassem que um novo dia havia começado.
A cama era suficientemente pequena para um só, mas quando Mariana dormia comigo eu tinha a rápida impressão que a menor distância que houvesse entre nós era grande demais, e por isso eu me certificava de que ela estaria sempre por perto abraçando-a algumas vezes durante a madrugada.
Levantei devagar tentando não remexer muito. Calcei os chinelos e fui, a passos arrastados, para a cozinha. A garrafa térmica ainda sobre a pia foi balançada: "Ainda resta algo!", pensei. Pus o conteúdo numa caneca que durante a noite tinha feito companhia à garrafa. Deduzi, pelo círculo caramelo no fundo da caneca, que ela já tinha sido usada. Por mim? Por Mariana? Que importa?! De uns tempos pra cá éramos praticamente um só. Eu finalmente me sentia completo.
Adocicava a bebida...O Charlie Brown me sorria estupidamente da estampa da caneca; o Snoopy ao seu lado parecia já ter se acostumado. Uma formiguinha apareceu se esgueirando pelo canto do balcão. Matei-a. Lembrei do meu catequista de quando era garoto. O seminarista Sérgio nos dizia: "Não se deve matar nenhum animal intencionalmente. Quem faz isso vai para o inferno". Um tom sombrio devia cobrir meu rosto infantil da épico. Voltando à minhas cozinha, balbuciei "Que o diabo me carregue", e ri.
De volta ao quarto, arrastei a poltrona para o lado da cama. Busquei meu café, sentei, e comecei a saboreá-lo. Eu observava incansavelmente minha Mariana adormecida. Parcialmente coberta, se expunha aos meus olhos indiscretos. Eu a via, e minha visão não cansava dela.
O ventilador completou seu ciclo de para-lá-para-cá algumas muitas vezes. Mariana começou a acordar. Um fresta no seu olho semiaberto brilhou, e eu sorri.
"Café?", ofereci inclinando a caneca. Ela me deu um sorriso torto e virou envergonhada pela cara amassada e o cabelo assanhado. Observei as linhas de suas costas, da cintura, e da coluna vertebral; tudo coberto por uma pele morena clara como quando se coloca leite demais no café.
Deixei a caneca vazia de lado e me acomodei numa margem do colchão. Tateei a pele nua da cintura ao quadril. Encostei a ponta do nariz em seu cabelo e cheirei. Aquilo me acalmava. Por último dei um beijo na bochecha quente.  
"Ei,...", ela sussurrou rouca, "eu quero o café."
[...]

Por HB.

0 loucos comentaram:

Postar um comentário

Can you comment !