quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O caderno.

Ela tinha dúvidas sobre as razões para fazer o pedido, mas, também tinha certezas sobre o porquê deveria fazê-lo. Sabia que ele tinha um natureza tão complicada quanto a própria natureza. Talvez esses fossem os motivos para desejar e temer ler o que ele tanto escrevia 'naquele caderno'. Deixou-se flutuar por entre as suas questões. Isso não era frequente; pelo menos não antes dele. Deixa-lo entrar na sua vida trouxe, além de mais um prato sujo, o fim de boa parte das certezas que havia construído. Sobre os escombros, esculpia com ele obras-primas dos dois. Entretanto, havia uma obra só dele; havia o caderno.
- Eu... - ela hesitou.
- Não! - ele respondeu enfático.
- Mas você nem sabe o que eu ia falar!
- Você passou os últimos cinco minutos olhando para o nada. Abriu a boca mas teve medo de perguntar porque já presume a minha reação. A resposta vai ser não.
Ela tomou coragem. Aquela que vem diante do desafio, do desaforo.
- Eu quero ler seu caderno.
Ele fixou nos olhos dela. Tentou achar algo que não sabia bem o que era. Não achou nada, nem um vacilo.
Piscou devagar e respirou fundo.
- Ler é entender. - começou - Entender deixa as coisas mais fáceis. Não me leia. Não me facilite.
Depois disso ela nunca mais tentou lê-lo.

Por HB.

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