sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Relato de um plantonista. [04]

- Senhor Pedro? - chamou uma voz feminina.
- Já vou. - levantei e já me encontrei na recepção do hospital.
- Senhor, se acalme.
Me dei conta do que estava acontecendo.
- A médica que atendeu sua esposa gostaria de falar com o senhor.
- Como está minha esposa?
- O quadro dela exige cuidado. A médica pode lhe explicar melhor. Me acompanhe, por favor.
Saiu a minha frente. Entramos no elevador e fomos até o quarto andar.
- É por aqui. - disse batendo numa porta. Ela abriu um pouco. - Doutora, ele está aqui. Pode entrar.
Entrei.
Fiquei surpreso ao ver que a médica era uma ex colega de faculdade.
- Oi, Angelina.
- Pedro? Você é o esposo da paciente de deu entrada aqui nessa madrugada? - ela parecia mais surpresa que eu.
- Sou sim. Lívia é o nome dela.
- Isso mesmo. Lívia. - Ela me olhou. Pareceu me analisar. Não nos víamos a um bom tempo. - Pedro, sente, por favor. Vai ser mais fácil explicar a situação.
- O que aconteceu co Lívia? Qual é o estado dela?
Angelina endireitou-se na cadeira.
- Bom, como você percebeu ela estava apresentando hemorragia média. Também estava com febre. - ele me encarava. eu estava muito atento. - Conseguimos conter a hemorragia, e agora ela está recebendo sangue. Porém a febre continua alta.
- Mas, Angelina, eu não consigo entender como ela ficou assim. Eu saí de casa na sexta de manhã para dar um plantão no interior, voltei ontem de tarde e ela estava dormindo. Agora de madrugada eu encontrei ela no chão do banheiro. Não entendo.
- Pedro, vocês planejavam ter filhos?
Franzi a testa.
- Sim. Queríamos crianças. Por quê? O que tem a ver?
- Pedro, eu quero que você tente entender. Lívia está com o útero dilatado. A hemorragia foi causada por, como posso dizer, agressões graves na parede do útero dela. O quadro de infecção está bem acentuado. Tudo me leva a crer, Pedro, que ela tenha feito um aborto clandestino.
O fundo do meus estômago despencou. Afundei na cadeira.
- Impossível.- gaguejei.
- Pedro, você é médico. Sabe que o que estou falando está certo. Eu creio nessa hipótese do aborto. - Ela fez uma pausa. Eu estava olhando fixamente para nada. - Não sei o que pode ter levado ela a fazer isso. Talvez por medo da sua reação. Talvez por medo de qualquer coisa que tenha passado pela cabeça dela. Isso é algo que só saberemos se ela melhorar.
- Eu não acredito...- balancei a cabeça negativamente. - Qual a chance, Angelina? Chance do aborto?
- Sinceramente eu não consigo imaginar qualquer outro motivo para ela se encontrar no atual estado.
- Puta merda! - pressionei as mãos contra o rosto. Senti meus olhos queimarem. Uma maldita lágrima pulou por entre meus dedos. Levantei a cabeça e respirei fundo enxugando as bochechas.
- Pedro, não se culpe. Foi uma decisão dela. Você saberá o motivo na hora certa.
- O motivo eu já sei, Angelina. - levantei o olhar até encontrar com o dela. - Eu sou estéril.


Por HB.   

2 loucos comentaram:

Anônimo disse...

Muito bom!

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