sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Relato de um plantonista. [06]

Através da jeans podia sentir o calor entre as minhas pernas.
Girei a chave da moto e puxei o pedal. Fui entrando na conveniência do posto de gasolina. Era muito cedo da manhã, e tinha passado a noite todo viajando.
Para onde?
Sem destino.
A balconista me recebeu com um sorriso cansado. Ela devia ter passado a noite trabalhando.
Pedi um café extra forte e umas barras de cereal. Fiquei em pé mesmo, de frente ao balcão, colocando tudo pra dentro e olhando a tv pequena a qual a balconista fitava.
A vinheta do jornal matina soa, e a jornalista começa "Bom dia, nessa manhã de sábado..."
-Sábado? - repeti.
A garota me olhou. Balancei a cabeça negativamente indicando que não me referia a ela.
Hoje é sábado...
Faz seis dias que estou na estrada.
Na manhã da ultima segunda-feira fui a uma loja de motos levando a mochila com dinheiro.
Comprei uma. Deixei o carro na garagem da loja mesmo e já saí pilotando.
Comigo só trazia cartões de crédito, documentos pessoais, e uma vontade de não pensar em nada.
Mas já se passaram seis dias...
Em que cidade eu estava? Será que muito longe de casa?
- Garota, qual a distância até o Recife?
- Recife? É bastante longe, viu.
- Bastante quanto? - faltava-me paciência.
- Uns mil quilômetros, pelo menos.
Bufei.
Tomei o resto do café, fui a geladeira e peguei um cerveja.
" Se tenho que encarar mil quilômetros de estrada, que seja ao meu jeito."
Paguei.
Voltei à moto. Coloquei o capacete, dei a partida e tomei um gole da cerveja.
O motor roncou alto quando acelerei para a estrada novamente.

O sol esquentava o couro da jaqueta. A única peça de roupa que estava comigo desde o começo da viagem. Comprei camisa, calça, cueca e meias na tarde de quinta-feira antes de me dirigir a um motel para passar a noite.
Sozinho num motel. Mas é que nem todos os hotéis oferecem sabonete, desodorante, etc.

Parei para abastecer. Era pouco mais da metade da manhã e já havia percorrido 400 quilômetros.
Moto abastecida. Voltei à estrada.
Agora eu pensava no por que de estar voltando.
Que sentido tem abandonar e depois voltar atrás?
Quando saí da loja de motos eu tinha certeza de que nem tão cedo voltaria a percorrer as ruas da cidade.
Nem tão cedo são seis dias?
Parei a moto no acostamento. Deixei o capacete sobre o tanque.
Foi nesse momento que me dei conta de que não havia chorado a morta dela... de Lívia.

Chorei.

Não tinha certeza sobre o porquê chorava. Se era por tê-la perdido de forma tão repentina, ao pela forma como a perdi, sem ter tido a chance de esclarecer algumas coisas...
Por que ela estava com outro? O que eu tinha feito de errado?
Eu trabalhava demais e dei a ela pouca atenção? Ou dei atenção demais?
Um flashback de nós dois passava em minha cabeça. A traição não fazia sentido.
" Você me enoja! Não quer ver o que está na sua cara."
Disse uma vozinha dentro de mim.
" Se fosse um amigo seu, você estaria completamente convencido de que a garota era um puta."
Não podia ser. Lívia sempre foi amável comigo. Estávamos casados há alguns anos. Nada a faria...
" Nada?! Seu imbecil! Pense direito. Use a razão."
Razão sobre o que?
"Sobre os fatos. Ela abortaria um filho que vocês tanto queriam? Claro que não! Mas ela fez um lindo aborto clandestino tomando algum remédio e deixando sei lá quem tirar dela a criança. E por que ela faria isso? Por que a criança não era sua!"
Não há provas.
" Provas? É por isso que você está voltando."
Era justamente isso!
" Se eu não fosse você, riria da situação."
Não há graça. Eu tenho que saber a verdade. Não quero passar o resto da vida sofrendo sem saber se por amá-la ou odiá-la. Preciso me libertar dessa dúvida.
" Palhaço! Mas se é assim que vai ser, tudo bem. Esclareça o que já é certo para mim. "
Enxuguei o rosto, coloquei o capacete e dei a partida na moto.
Antes de esquecer dessa vida...eu tinha que saber a verdade.


Por HB

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