domingo, 27 de outubro de 2013

Relato de um plantonista. [07]

- Aceito. - foi a palavra mais carregada de convicção que já falei.
Eu fitava o padre à nossa frente, mas a minha visão periférica deixou-me certo de que Lívia sorria. Sorria muito. Eu seria capaz da dizer que brilhávamos.
- Então pelo poder investido um mim por Deus, eu vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.
Ficamos frente a frente. Uma lágrima escorria pelo lado esquerdo do rosto dela.
Nos beijamos.
Saímos da igreja sob a chuva de arroz. Abri a porta do carro e já estávamos no chalé.
Lençóis brancos, finos. A lareira crepitando, aquecendo o frio que as paredes deixavam entrar.
Fizemos amor. Tomas vinho. Fizemos amor outra vez.
As chamas faziam as sombras se mexerem.
Deita sobre meu peito. Abraçados sob o cobertor. Olho-me com seus expressivos olhos castanhos claro.
- Amo você. Amo demais.

Abri os olhos para a escuridão do nosso quarto no apartamento do sétimo andar.
- Lívia...
Era madrugada de domingo.
Dali a poucas horas seria a missa de sétimo dia do falecimento dela segundo informava o convite empurrado por baixo da porta.
Sentei-me na cama. Os pés tocaram o chão mais frio.
"Foi bom enquanto durou, eu sei. Mas agora esqueça!"
Não consigo. Não ...
Eu tinha planos de ir no fórum onde Lívia trabalhava. Alguém, alguma amiga, deveria ter notado algum comportamento estranho dela. Lá era o lugar mais certo para encontrar respostas para minhas questões.
Será que ela tinha mesmo outro?
"Sim."
Será que estava grávida dele?
"Sim!"
Agora só de uma coisa eu estou certo. Lívia descansa mais em paz do que eu.

Estacionei a moto numa rua perpendicular meia hora antes.
Entrei na igreja. Sentei no ultimo banco, no lugar que me pareceu mais discreto possível.
Aos poucos as pessoas começaram a chegar e ocupar os lugar à minha frente.
Vi quando Dona Teresa entrou de braços dados com o marido. O pai de Lívia havia falecido há anos, esse era apenas o padrasto, porém ele parecia abatido. Logo atrás, Flávia, irmã mais nova de Lívia caminhava usando uma blusa preta de manga cumprida e uma jeans escura.
A missa começou com uma senhorinha beata lendo a lista com os nomes das pessoas a qual a missa era direcionada. Nesse momento um rapaz sentou-se ao meu lado. Não lhe dei atenção. Estava concentrado nos nomes.
-.... Lívia Lucinda de Melo,...- falou a senhorinha.
-  Lívia... - repetiu num suspiro o rapaz ao meu lado.
Olhei-o de imediato. O coração batendo mais forte.
" É ele! É ele! É ele!"
Não devia ter mais de 25 anos. Os cabelos escuros penteados para trás. Pouca barba no queixo.
Concentrei-me com bastante dificuldade em minha voz.
- Você conhecia a Lívia?
- Conhecia sim. - o rapaz tinha um pesar aparente bem maior que o meu. - Eu só não entendo com isso aconteceu com ela.
- Um dia chega para todos nós.
"Pergunte mais alguma coisa!"
- Vocês trabalhavam juntos?
- Até uns dois meses atrás sim. Foi quando começamos a namorar. Mas meu estágio no fórum acabou e eu saí.
"..."
Senti meu estômago despencar. Meu sangue esfriou-se tal como o dela devia estar agora.
Olhei para frente, para além do padre.
Os olhos queimaram e uma lágrima desceu. A imagem do homem crucificado tornou-se embaçada.
- Por que fizeste isso comigo?


Por HB.


2 loucos comentaram:

Leitor. disse...

Você escreve muito bem. Continue. A história tem me emocionado bastante.
Gostaria muito de saber quem é a Lívia, na verdade, e por que motivo ela resolveu fugir da própria vida desse jeito.
Boa noite.

Cibele Moura disse...

Obrigado! :)
Uma vez eu conheci um cara numa cafeteria. Ele ocupava uma mesinha na frente da minha. Escrevia quase loucamente. Chegou uma hora, porém, que ele largou a caneta e pôs a mão na cabeça. Cheguei perto e perguntei: "Ei, cara. Cê tá bem?". Bastou isso para que ele me contasse todo o drama de vida. Mas o interessante foi o fato de ter levado um fora da namorada dele. Pelo que ele falou ela era ótima. A melhor namorada no mundo. E justamente por isso ele traiu ela. Ela perdoou. Ele traiu outra vez. Ela perdoou e continuou a ser boa com ele. Mas aí ele teve um breve relacionamento com a melhor amiga dela. Dessa vez ela deu um pé na bunda dele! O legal da história é que apesar disso ter acontecido há muito tempo, ele disse que não se sentia mais vivo desde então. Que havia perdido a vida quando ela deixou ele. Bom, Lívia foi inspirada nesse cara.

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