sexta-feira, 7 de junho de 2013

Conto bobo aleatório (passando o tempo)

Era noite, estava quente.
Ela saiu de casa com um short jeans curto, camiseta branca e casaquinho preto, só por charme, e um chapéu. Os lábios ardiam num vermelho quente, mas não tanto quando aquela noite.
Saiu só, sem planos, sem destino, sem pensar.
Pegou o primeiro ônibus que passou, que se destinava, por coincidência, aos 'points' da cidade.

Desceu no primeiro lugar em que viu muitas pessoas juntas: um posto de gasolina.
Comprou uma longneck de uma cerveja qualquer. Encostou-se num lugar qualquer e olhava para um qualquer que passasse.
Logo fez uma careta. "Ah, aqui está monótono!"
Saiu andando sempre em frente.

Parou em frente a uma boate. Homens se beijavam, mulheres se beijavam. Era comum, porém estranho estar vendo aquilo. Fez outra careta e saiu.
Parou novamente, dessa vez num bar. Não estava com muita gente, nem era um 'puta bar', era pequeno, com aparência suja... Mas estava cansada, e era um bar.
Logo comprou mais cerveja e encostou-se num banco do lado de fora.
Estava pensando no quanto era idiota de sair sem rumo, pensava em voltar para casa e dormir, como a maioria das pessoas estavam fazendo.
Passou um grupo de homens. Grandes, fortes, bem vestidos... Logo dois deles começaram a soltar elogios dos mais sacanas.
Ela logo injuriou-se, pensou em responder, mas permaneceu calada.
Um dos rapazes pediu para que os outros parassem. E ela viu. Encheu os olhos com a atitude dele. Ele era, por sinal, o que se destacava, so que ao contrário. Era mais magrinho, tinha barba grande.
Inconsciente, sorriu, e foi retribuída logo após. Ficou envergonhada, sentiu-se tola.
O rapaz que não tirou os olhos da garota, logo se aproximou.

- Oi, boa noite.
- Boa noite -
sorrindo.

- Então... Desculpa pelos meus amigos, já beberam um pouco...
- Ah, que nada... Acontece.

- É, com você deve acontecer constantemente. Você é muito bonita.
Ela corou, respondeu meio sem jeito:
- Obrigada. Mas deve acontecer pelas roupas que visto... Meio curtas.

- Ah, mas você tem um corpo bonito, e é magra, deve usar roupas assim mesmo.
- Ué, e você sabe como as mulheres tem que se vestir? - querendo descontrair e mudar de assunto.
Ele riu.
- Não exatamente... 
Calaram-se.
O silêncio permaneceu por um tempo.
- Então, é... Como você se chama?
- Paola. E você?

- Me chamo Guilherme. Desculpa perguntar, mas você está sozinha?
- Sim, sim.
- Desculpa de novo, mas porque? Onde está seu namorado?Os amigos dele, que estavam perto o suficiente para ouvi-lo, logo começaram a brincar com ele.
- Se importa em sair daqui? Meus amigos estão me deixando sem jeito... - disse ele meio estressado.
Ela riu e concordou. Andaram até um banco pouco distante, calados.
- Então Paola, onde está seu namorado?
- Está em casa -
falou duvidando das próprias palavras.

- Em casa? Vocês brigaram?
- Não. Ele deve estar tomando leite e comendo ração agora mesmo - e riu.
Ele ficou meio confuso.
- Ração?
- É, se meu gato contar como namorado... É a única companhia que eu tenho constantemente.

- Ah, sim, um gato - respondeu super envergonhado.
- Desculpa pela brincadeira, Gui. Posso te chamar assim né?
- Pode sim. Só meus pais me chamam assim, mas tudo bem.

- Então, Gui. Se importa em voltarmos no bar? Minha cerveja acabou.
- Se quiser eu posso ir... Você sabe, meus amigos estão por lá.
Ela concordou. Ele foi buscar a cerveja cheio de boa vontade, cheio de vida.
Os amigos gritaram com ele, brincando. Ele passou sem sequer olhar.
Quando voltou, ela perguntou quanto custou, já abrindo a bolsa que carregava. Ele se negou, disse que não era nada pagar uma cerveja a ela. Ela concordou, meio sem jeito, mas concordou.
- Gui, já percebi que você não tem namorada... O que faz da vida?
- Bem observado - sorrindo - Estou estudando biologia, e você?
- Estou terminando o curso de publicidade, faço estágio.

- Desculpa pela milésima vez, mas qual tua idade?
- Tenho 24.
- Nossa, minha idade. Mora com os pais, só com o gato, amigas...?
- Moro só com o gato mesmo.
- Que legal. Eu moro com meus pais... Sabe como é, né? - rindo.

A conversa rolou solta, cada um querendo saber mais do outro, querendo conhecer os jeitos. Riram bastante, se tocaram, ficaram sem jeito inúmeras vezes.

- Pois é, Gui, preciso ir pra casa.
- Mas já? Amanhã é sábado!
- É... Mas trabalhei hoje e estou com sono. Saí pensando que ia ser como das outras vezes: beber, não encontrar ninguém legal e voltar. Se soubesse que conheceria você, teria me preparado.
Ele riu.
- Então tudo bem...
- Me acompanha até a parada de ônibus?
- Você vai de ônibus? Jamais! Acompanho você até meu carro, pode ser?
Ela ficou boquiaberta, não sabia se aceitava ou negava. Mas o ônibus demoraria bastante pela hora. Pensou bastante até responder.
- Então tá!
- Só preciso passar nos meus amigos para dizer que estou indo mais cedo... Tudo bem pra você?Ela fez uma meia careta, mas foi.
Chegando próximo aos amigos, ele atravessou o braço nas costas dela, apoiando a mão na cintura. Ela ficou sem jeito, mas deixou. Os amigos ficaram parados, não brincaram, não disseram nada, apenas concordaram com a ida antecipada.
Direcionaram-se ao carro. Era um modelo popular, prata.

Ele abriu a porta do passageiro para ela, que sorrindo, adentrou e sentou-se.
Ele arrodeou e entrou. 
- Então, onde você mora?
- É fácil de chegar! - explicou onde era e o melhor caminho para chegar até lá.
Ele ligou o carro e deu partida. No primeiro sinal, ligou o som. Uma música calma, daquelas bem gostosas de se ouvir.
Ela o olhava o tempo todo. Sorria. E ele nem notava, estava concentrado, olhando para a frente.

Chegaram. Ele para o carro bem em frente do edifício.
- Pronto, garota, está entregue! - sorrindo.
- Obrigada - abrindo a porta para descer.
Voltou um meio caminho, abaixou-se na janela.
- Não vai descer? - sorriu docemente.
Ele ficou sem saber o que fazer, extasiado com o convite que acabara de receber.
- É só estacionar ali na frente... Ninguém mexe, pode ficar tranquilo.
Ele imediatamente pôs o carro no lugar indicado. Saiu pondo a chave num bolso e tirando o celular de outro.
Ela, ainda meio distante dele, fala:
- Papai e mamãe não reclamam por você chegar um pouco mais tarde, né? No caso, um pouco cedo demais. - gargalhou.

- Não não... Só fui botar o celular no modo silencioso.
Ela calou-se, assustada com a resposta.
Entraram no elevador calados. Ela aperta o botão "8" e posiciona-se.
Ele, poucos segundos depois, apoia a cabeça no ombro esquerdo dela, fechando os olhos.
Ela permanece imóvel, sem saber o que fazer a partir dali.
O elevador chega no andar, ela vai na frente até o apartamento número 802.
Adentram o pequeno apartamento que é basicamente todo branco, se não fossem o sofá e o arranjo da mesa vermelhos. O gato, também branco, começa a passar entre as pernas dela.
Ela tira o chapéu, casaco e bolsa, jogando-os no sofá.
Ele, meio envergonhado, fica ainda na entrada, agachado e brincando com o gato.
- Ah, Gui, me poupe né? Sinta-se em casa! - andando em direção a cozinha americana.
Ele a segue.
Ela abre a geladeira, dá uma pequena olhada.
- Então, suco, refrigerante, café, ou somente água?
Na demora pela resposta...
- Tem vinho também... Mas notei que você não toma bebida alcoólica.
- Em ocasiões especiais, porque não? - sorrindo.
Ela ficou surpresa, e com um risinho no canto da boca, pegou o vinho.
Serviu em duas taças altas. Brindaram antes do primeiro gole.

Bebericaram por toda madrugada, mantendo a conversa sempre nas curiosidades e no quanto a vida de um era melhor que a vida do outro.
No fim da madrugada estavam um pouco embriagados, com os olhos pesando.
- É agora que dormimos abraçados? - pergunta ele.
- Acho que sim...
Ela encostou-se no peito dele, que estava deitado no sofá.
- Bom dia, Guilherme. - dando um pequeno beijo no queixo dele.
Fecharam os olhos instantaneamente. Dormiram.

O celular dele vibra por volta das 12h. Ele acorda, pega o celular ainda com sono, sem mexer muito para não acordar a menina dos seus sonhos.
"Vem pelo menos para almoçar? Mamãe."
Ele devolve o celular ao bolso.
Ela abre os olhos, meio confusa, se afastando bruscamente dele.
- Que horas são?
- São doze e vinte e seis, minha cara. Boa tarde.
- Nossa, devíamos almoçar, o que acha? Vamos a um restaurante, shopping talvez...
- Você não tem nada aqui? Não queria sair.
Ela riu, meio sem jeito, afinal, deveria ter o que almoçar.
- Na verdade tem, mas não quero fazer - riu - Pedimos algo, então?
- Podemos fazer juntos, bem melhor.
Ela, ainda sem jeito, levantou andando para a cozinha.
Ele ajudou-a a fazer sanduíches.
Comeram no chão da sala e tomaram uma clássica coca cola.

- Ei, e seus pais ainda não sentiram tua falta? - debochando dele.
- Sentiram... Mandei mensagem dizendo que só chegaria a noite. Então diga aí, quais seus planos?
Ela ficou sem saber o que fazer.
- Ham... Não sei. Diga quais seus pensamentos.
- Bem, prefiro pôr meus planos em ação antes de dizê-los. - indo na direção dela.
Ela estava assustada, mas não se moveu.
Ele se aproximou, parou com o rosto a alguns centímetros do dela.
- O que você ta pensando?
- É...
- Diz - falando baixinho.
Ela permaneceu calada.
Ele gargalha.
Ela fica enfurecida!
- E aí, o que você pensou?

- O lógico!
Ele gargalha novamente.
- Olha, se for pra ficar dando risada de mim, não precisa ficar.
Ele se espanta.
- Não não... Ei, me desculpe. - falou sério, arrependido - é que não sei mesmo como fazer.
- Então não faz, oras!
Ele fica olhando-a, sério.
- E seria essa a hora de ir embora?
- Se você quiser, pode ir, não faço mais questão - emburrada.
- Eu faço. Eu queria ter tua vida, tua casa, teu gato. Até ter você. Mas eu posso dizer isso? Acabei de te conhecer, eu dormi na tua casa, eu almocei contigo!
Ela permanece séria, olhando-o. Palavras e mais palavras ficam engasgadas na sua garganta.
- E eu, posso? - explodiu - Te conheci agora também, te trouxe pra minha casa. Um homem que eu nunca vi na vida dormiu aqui! Não que tenha sido o primeiro, mas não rolou nada entre a gente. Tudo aconteceu por causa de cantadas baratas dos teus amigos, de uma carona e um convite impensado. E aí, como eu fico?
Ele cala. Pensa.
- Posso ficar?
- Ah, se quiser ficar, que fique.
- Então obrigado - riu com sinceridade - Posso te dar um beijo?
Ela calada, acenou com a cabeça, olhando para baixo.
Ele a puxou e a envolveu num beijo divinamente perfeito, do tipo que nunca tinha acontecido com nenhum dos dois.

*

Talvez tenham namorado, talvez tenham somente deixado acontecer. Talvez até tenham morado juntos. Mas isso são coisas proporcionalmente prováveis e improváveis de acontecer, tanto quanto o modo que se conheceram ou tenham deixado acontecer.

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