Era esse o único som que quebrava o silêncio do quarto da UTI.
Nem mesmo conseguia ouvi-la respirar. E fazia isso com ajuda de aparelhos.
Lívia estava muito pálida. Parecia ter o rosto de cera.
Não tinha mais febre. Estava fria como as paredes do quarto.
A enfermeira tocou meu ombro avisando-me que era hora de ir.
Quis pedir um pouco mais de tempo. Talvez para beijá-la e dizer até logo, ou para usar um bisturi para abrir a garganta.
Decidi apenas dar as costas e sair do quarto.
O movimento nos corredores estava maior. Devia ser metade da manhã. Como não havia mais nada para fazer. Só poderia esperar.
Só quando já descia do carro, na garagem do prédio, percebi o sangue no banco do carona. De repente senti meu rosto ficar lívido e em minha garganta fez-se um nó.
Passei voando pelo corredor. Devia estar chorando já que os vizinhos olharam-me com estranheza. Lembro-me apenas de entrar debaixo do chuveiro, secar-me e cair na cama.
Girei a chave do apartamento. Deixei a maleta no chão da sala. Percebi uns papéis em cima da mesa. Lívia devia estar trabalhando. Dirigi-me ao quarto. Antes de abrir a porta ouvi um barulho vindo de dentro. Era Lívia...gemendo?
Abri a porta e a vi sobre nossa cama no ápice do coito com um homem sem rosto. Os músculos das nádegas dele se contraiam enquanto ela virou o rosto para mim e sorriu. Saquei um revolver e disparei duas vezes nas costas dele. Ele tombou e caiu no chão ao lado da cama. Ela gargalhou como nunca a vira fazer.
- Você não pode fazer nada! NADA! - gritou
Puxei o gatilho e com o barulho do disparo acordei.
O celular chamando, de tanto vibrar quase cai do criado mudo.
- Alô.
- Senhor Pedro?
- Sim, sou eu. - sentei-me, coçando do olhos.
- A sua esposa, Lívia, teve uma piora no quadro clínico e gostaríamos que o senhor viesse ao hospital.
- Tudo bem. Estarei aí assim que possível.
- Obrigado, senhor. Estaremos esperando.
Desliguei.
Ela havia falecido. Eu tinha certeza disso. Senão por que a mulher ao telefone diria " Estaremos esperando"?
O relógio marcava cinco da tarde. Vesti-me e voltei ao hospital.
Uma outra enfermeira guiou-me até o quarto andar outra vez. Mas agora entramos numa outra sala. Um homem médico calvo e grisalho, com óculos sem armação, olhou-me por cima das lentes.
- Doutor, esse é o senhor Pedro. - anunciou a enfermeira
- Obrigado. Sente-se, senhor Pedro.
Puxei a cadeira e sentei. A enfermeira saiu.
Sentia-me estranhamente calmo. A sala era bem iluminado, e havia algumas réplicas de carros antigos numas prateleiras atrás do médico.
Olhei bem nos olhos daquele homem de cabelos que prateavam ao redor da cabeça. Quase senti vontade de sorrir.
Poderia dizer que eu estava quase me sentindo bem pela notícia que estava para receber.
- Senhor Pedro, antes de tudo quero que saiba que fizemos o possível por sua esposa. Mas ela infelizmente veio a falecer ha cerca de quarenta minutos.
- Tudo bem, obrigado. - falei com simplicidade.
- Tudo bem? - estranhou o homem.
Respondi com um sorriso. Abri a porta e saí.
Desci até o térreo, passei pela recepção e deixei o hospital.
Procurei na agenda do celular.
Chamou três vezes até Dona Teresa atender.
- Oi Pedro.
- Oi Dona Teresa. Liguei para avisar que Lívia morreu.
- A Lívia o quê?
- Morreu. Está no Hospital Real Italiano. Venha aqui e libere o corpo. - "Mas o que vc está falando?" - Bom funeral. Tchau.
Desliguei e joguei o celular num lixeiro na calçada.
Corri até o estacionamento. Voltei para casa e peguei todo o dinheiro que havia e coloquei numa mochila.
A vida parecia diferente. Os sons eram diferente. As cores também. O mundo realmente mudara ou só eu?
Não sei. Mas nada seria igual a como fora. Tudo mudaria, eu então eu faria mudar.
Por HB.
1 loucos comentaram:
Que trágico. Livia morreu e Pedro não teve a chance de esclarecer as coisas. A não ser que o lançe do filho fosse coisa da cabeça dele e oq realmente aconteceu foi ele ter achado ela com o outro boy. De qualquer jeito ele se deu mau.
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