Estavam os dois a cochichar na sala de estar. Ouviam-se risinhos breves da moça.
Ela tinha os cabelos castanhos, meio encaracolados na altura dos seus pequenos seios, e eles arfavam por cada vez em que ele a fazia algum elogio. Ela adorava-o. E ele a amava! Mesmo tendo mil e um motivos para não fazê-lo.
Era bonito, forte, jovem. Tinha uma barba que o deixava com aspecto mais maduro. Gostava de ver-se assim. Ele poderia ter em mãos qualquer moça da pequena cidade, mas queria somente a ela. A menina que lhe encantara o bom gosto, o dom pela escrita e a face, quando avermelhada.
Ele a dissera mais uma vez:
- És linda! – com o tom de voz baixo.
Ela corava. Tentava esconder-se prendendo um dos cachos atrás da orelha.
Estavam mais perto que o de costume. Ele poderia chegar a tocá-la. Mas ela não o deixava fazer, apesar de toda vontade que a habitava.
E ela sabia que desejava-o mais que tudo neste mundo. Sentia-se envergonhada só de pensar nisso, ele a olhava de um jeito encantador, deixava-a com as pernas bambas! Mais parecia que conseguia ler sua mente pelos olhos. Por isso ela nunca o olhava diretamente.
Ele sabia que tinha controle total sobre ela. Sentia isso somente de tocar-lhe as mãos gélidas de dedos finos: suava, não o deixara tocar-lhes por muito tempo. Ele mudava de expressões a todo instante. Pegava-se sério, navegando em pensamentos proibidos, e em poucos instantes, a sorrir por saber que estava no poder.
Afastam-se bruscamente: a mãe dela invadira a sala calçando as luvas negras.
- Filha, estou indo à modista fazer aquele vestidinho azul xadrez... Vens? – e antes que ela respondesse: – Melhor não... Deixar-te-ei com tua visita. Mas não me demoro, volto num pulo! – e saiu abrindo o guarda sol.
Ela o fitara, ainda de longe, e sorria timidamente. Ele se aproximara dela, conseguindo até ouvir sua respiração forte. Ela estava imóvel, sentada no canto do sofá cor-de-goiaba, não conseguia mexer um músculo.
Ele chega bem perto e põe-se a beijar seus braços. Logo percebe os pêlos arrepiarem-se. Aumentou o ritmo e subiu até os ombros. Conseguia ver seus olhinhos verdes revirarem.
- Enfim! – disse baixinho, quase ao pé do ouvido.
Ela estremecera. Deu um leve sorriso para desviar a atenção. Mas não conseguira. Os olhos cor de avelã a deixavam a suspirar. A sua vontade era jogar-se aos braços e enchê-lo de beijos!
Enquanto pensava nisso, ficou parada. E quando percebeu, ele estava olhando-a cheio de ternura.
- O que se passa dentro dessa cabecinha?
Ela rira, sem saber o que responder. Continuou calada.
Ele de algum modo, adivinhou o que se passava ali. A puxou para mais perto e soltou-lhe os cabelos presos por uma fita rosada. Mexeu-se muito neles até dizer:
- Ficas mais bonita assim. – Chegando cada vez mais perto.
Deu-lhe um beijo na maçã do rosto. Ela, de olhos fechados, estava fria e rígida, parecendo ser feita de mármore. Abriu os olhos e procurou o seu olhar. Viu-se perdida em meio a tanto sentimento percorrendo seu corpo. E, sem mais pensar, jogou seus braços por cima dos ombros dele e lançou-lhe um beijo inocente.
Ele sorriu breve, malicioso. Enrolou seus braços por entre a cintura fina dela e beijou-a.
Ela se lançara para ponta do sofá. Estava sem fôlego.
Ele a olhava rindo. Ela sorria também, morrendo de vergonha.
Ele aproximou-se dela, afastou seus cabelos para o lado e beijou-lhe o pescoço. Viu sua mãozinha apertar forte o vento. Ria por dentro.
Ela estava nervosa, sem saber mais o que fazer! Nunca tinha pêgo-se numa situação destas! Olhou-o:
- Vais pra casa, vais! Xô! Logo mais minha mãe chega. – Sua voz dizia, mas seu coração pedia com toda força para que a negasse a ordem.
Não se via no direito de pedir para ficar. Levantou-se e pôs o chapéu em mãos. – É, vou-me indo mesmo... Está anoitecendo. – Fizera um bico, como uma criança.
Ela sorri, caminhando até a porta principal, feita de jatobá; ele vai atrás. Abre-a e o deixa passar.
Ele se põe a sua frente, pondo o chapéu na cabeça.
Já fechando a porta, enfia-lhe a cabeça para fora e diz com os cachos todos fora do lugar:
- Vens amanhã? Às duas? – Sorrindo.
Vira-se olhando-a; sorrindo...
- Venho, meu amor, eu venho!
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